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798 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Índia bloqueia temporariamente o Telegram para evitar fraudes em exame nacional de medicina

    O governo da Índia determinou o bloqueio temporário do Telegram em todo o país em uma tentativa de conter esquemas de fraude relacionados ao principal exame de admissão para cursos de medicina. A medida foi adotada dias antes da reaplicação do NEET-UG (National Eligibility cum Entrance Test for Undergraduate Courses), exame que funciona como principal porta de entrada para o ensino médico indiano. Segundo a National Testing Agency (NTA), órgão responsável pela aplicação das maiores provas de ingresso do país, autoridades locais ordenaram que o Telegram restringisse o acesso à plataforma até 22 de junho, um dia após a nova realização da prova. Além disso, o governo exigiu que o recurso de edição de mensagens permanecesse desativado na Índia até 30 de junho. A decisão está diretamente ligada a investigações envolvendo golpes que exploravam funcionalidades da plataforma para simular vazamentos de provas. De acordo com as autoridades, criminosos publicavam supostas questões antes da realização do exame e, posteriormente, utilizavam a função de edição para substituir o conteúdo pelas perguntas reais após a aplicação da prova. A prática criava a falsa impressão de que os responsáveis tinham acesso antecipado ao material oficial. Mais de 2 milhões de estudantes devem refazer o exame em 21 de junho. A reaplicação foi determinada após a anulação da edição realizada em maio, que acabou envolvida em denúncias de vazamento de questões. O episódio provocou protestos em diversas regiões do país e aumentou a pressão política sobre o Ministério da Educação indiano. A NTA informou ainda que autoridades de cibersegurança removeram uma quantidade significativa de canais, grupos e bots no Telegram que anunciavam acesso fraudulento a supostas provas vazadas. Os criminosos ofereciam o material a estudantes e familiares por valores que chegavam a milhares de dólares, embora as investigações indiquem que nenhum exame havia sido efetivamente comprometido. As ações policiais também avançaram contra grupos responsáveis pelos golpes. No início deste mês, agentes em Ahmedabad prenderam integrantes de uma organização acusada de operar oito canais no Telegram utilizando o mesmo esquema. Segundo os investigadores, a quadrilha movimentou cerca de 15 milhões de rúpias indianas, aproximadamente US$ 159 mil, por meio de contas bancárias fraudulentas e entrou em contato com cerca de mil números de telefone em apenas um mês. Outras investigações semelhantes seguem em andamento em diferentes estados do país. Embora reconheça os impactos da medida para usuários legítimos, a agência responsável pelos exames argumenta que as restrições são necessárias para preservar a integridade do processo seletivo. O governo considera que a disseminação de boatos sobre vazamentos e a comercialização de falsas provas representam riscos à credibilidade do sistema educacional. A decisão, porém, gerou críticas de organizações de direitos digitais. A Internet Freedom Foundation (IFF), entidade indiana voltada à defesa da liberdade digital, classificou o bloqueio como uma resposta reativa e ineficaz. Segundo a organização, a medida penaliza milhões de usuários comuns sem resolver as vulnerabilidades estruturais que permitem fraudes em exames de grande escala. A entidade destacou que muitos estudantes utilizam grupos de estudo e materiais educacionais hospedados no Telegram nos dias que antecedem a prova. Para a IFF, eventuais vazamentos legítimos provavelmente teriam origem em falhas internas relacionadas aos processos de impressão, transporte ou logística das provas, e não necessariamente na plataforma de mensagens. Até o momento da publicação, o Telegram não havia se manifestado publicamente sobre as restrições impostas pelo governo indiano. O NEET-UG já esteve no centro de outras controvérsias nos últimos anos. Em 2024, denúncias envolvendo possíveis irregularidades e notas excepcionalmente altas também levaram à abertura de investigações, aumentando o debate sobre a segurança e a transparência dos processos de seleção para o ensino superior no país.

  • Microsoft confirma falha zero-day RoguePlanet no Defender e trabalha em correção

    A Microsoft confirmou oficialmente a existência de uma vulnerabilidade zero-day no Microsoft Defender identificada como RoguePlanet e informou que está desenvolvendo uma atualização de segurança para corrigir o problema. A falha recebeu o identificador CVE-2026-50656 e foi classificada como uma vulnerabilidade de elevação de privilégios, com pontuação CVSS de 7,8. Em comunicado divulgado nesta semana, a empresa reconheceu a vulnerabilidade presente no Microsoft Malware Protection Engine, mecanismo responsável pela análise e proteção contra ameaças utilizado pelo Microsoft Defender. "Estamos cientes de uma vulnerabilidade de elevação de privilégios no Microsoft Malware Protection Engine do Microsoft Defender, publicamente conhecida como RoguePlanet. Estamos trabalhando para fornecer uma atualização de segurança de alta qualidade para resolver essa vulnerabilidade", informou a companhia. A confirmação ocorre poucos dias após o pesquisador de segurança conhecido como Chaotic Eclipse, também chamado de Nightmare-Eclipse, divulgar publicamente os detalhes da falha e um código de prova de conceito (PoC) capaz de explorá-la. Segundo o pesquisador, o RoguePlanet explora uma condição de corrida, conhecida tecnicamente como race condition. Esse tipo de falha ocorre quando dois ou mais processos acessam recursos compartilhados simultaneamente, criando uma situação inesperada que pode ser manipulada por um invasor para executar ações privilegiadas. Na prática, a exploração bem-sucedida da vulnerabilidade permite que um atacante obtenha um shell com privilégios SYSTEM, o nível mais elevado de acesso em sistemas Windows. Com esse nível de controle, um invasor pode executar comandos administrativos, modificar configurações críticas, instalar softwares maliciosos, manipular mecanismos de segurança e comprometer completamente o dispositivo afetado. O próprio pesquisador observou que a exploração não apresenta comportamento consistente em todos os ambientes. "O exploit utiliza uma condição de corrida, então pode funcionar ou falhar dependendo das circunstâncias. Em algumas máquinas consegui taxa de sucesso de 100%, enquanto em outras houve dificuldade para reproduzir o ataque", explicou. Em uma atualização publicada posteriormente, Chaotic Eclipse revelou um detalhe que chamou a atenção da comunidade de segurança: o exploit aparentemente funciona independentemente do estado da proteção em tempo real do Defender. De acordo com o pesquisador, os testes indicam que a vulnerabilidade pode ser explorada mesmo quando a proteção em tempo real está habilitada. Há indícios de que o comportamento também ocorra em ambientes configurados em modo passivo, embora essa hipótese ainda não tenha sido validada oficialmente. Antes da confirmação pública da Microsoft, a empresa havia informado ao The Hacker News que estava analisando a legitimidade das alegações e avaliando o impacto potencial da falha em seus produtos. O RoguePlanet representa a quarta vulnerabilidade relevante no Microsoft Defender divulgada por Chaotic Eclipse nos últimos meses. Anteriormente, o pesquisador revelou as falhas BlueHammer (CVE-2026-33825), UnDefend (CVE-2026-45498) e RedSun (CVE-2026-41091), todas posteriormente corrigidas pela Microsoft. Embora ainda não existam evidências públicas de exploração em larga escala, a divulgação de um PoC funcional aumenta significativamente o interesse de agentes maliciosos. Em situações desse tipo, a janela entre a divulgação técnica e a disponibilização da correção costuma representar um período de maior risco para organizações que dependem do software afetado. A vulnerabilidade também reforça um cenário recorrente no ecossistema de segurança: ferramentas projetadas para proteger sistemas podem se tornar alvos valiosos para invasores. Como soluções de segurança operam com privilégios elevados no sistema operacional, falhas nesses componentes frequentemente oferecem caminhos rápidos para comprometimento completo dos dispositivos. Até o momento, a Microsoft não divulgou uma data específica para a liberação do patch que corrigirá a CVE-2026-50656.

  • Apple corrige falha nos Beats Studio Buds que permitia espionagem via Bluetooth

    A Apple lançou uma atualização de firmware para corrigir uma vulnerabilidade de alta severidade nos fones de ouvido Beats Studio Buds que poderia permitir que hackers próximos espionassem usuários por meio do microfone do dispositivo. A falha, identificada como CVE-2025-20701 e classificada com pontuação CVSS de 8,8, afetava o SDK de áudio Bluetooth da Airoha e possibilitava o emparelhamento não autorizado dos fones sem o consentimento do usuário. Segundo a Apple, um invasor dentro do alcance do Bluetooth poderia explorar a vulnerabilidade para ouvir o áudio captado pelo microfone de um dispositivo que ainda não estivesse emparelhado, mas que estivesse em modo de busca por conexões. O problema foi corrigido por meio da atualização de firmware 1B211 para os Beats Studio Buds. A vulnerabilidade foi inicialmente revelada em junho de 2025 pelos pesquisadores Dennis Heinze e Frieder Steinmetz, da ERNW GmbH, durante a conferência de segurança TROOPERS, realizada na Alemanha. Na ocasião, os especialistas identificaram três falhas em chips Bluetooth da Airoha, incluindo a CVE-2025-20701, além das CVE-2025-20700 e CVE-2025-20702. De acordo com os pesquisadores, as vulnerabilidades permitiam assumir o controle completo dos fones de ouvido via Bluetooth sem qualquer autenticação ou processo prévio de pareamento. Os ataques podiam ser realizados tanto por Bluetooth Classic (BR/EDR) quanto por Bluetooth Low Energy (BLE), exigindo apenas que o atacante estivesse dentro do alcance do sinal. A análise apontou que os invasores poderiam acessar e modificar a memória RAM e a memória flash dos dispositivos afetados. Esse nível de acesso também abriria caminho para sequestrar relações de confiança já estabelecidas com outros dispositivos, como smartphones previamente conectados aos fones, ampliando significativamente as possibilidades de ataque. O caso reforça preocupações relacionadas à segurança de dispositivos Bluetooth, especialmente equipamentos de áudio inteligentes que possuem microfones embutidos e permanecem conectados de forma constante a smartphones e computadores. Embora a exploração exija proximidade física, o impacto potencial inclui espionagem, comprometimento de dados e invasão de dispositivos associados. Nova falha em chips A12 e A13 pode comprometer a cadeia de confiança dos iPhones Além da atualização dos Beats Studio Buds, a semana também trouxe novas preocupações para usuários do ecossistema Apple. A empresa europeia de cibersegurança Paradigm Shift revelou uma vulnerabilidade inédita no SecureROM, também conhecido como BootROM, que afeta dispositivos equipados com os chips A12 e A13. Os pesquisadores divulgaram uma prova de conceito chamada "usbliter8", capaz de explorar uma combinação entre uma falha de hardware presente no controlador USB dos chips e uma configuração inadequada no firmware dos dispositivos. Como o problema está localizado em código imutável gravado diretamente no hardware, não existe correção por atualização de software. Segundo a Paradigm Shift, a substituição do equipamento por modelos mais recentes é atualmente a mitigação mais eficaz. A cadeia de ataque explora um defeito no controlador USB utilizado pelos SoCs da Apple. Durante transferências de dados, o controlador armazena pacotes em buffers de memória. Os pesquisadores descobriram que é possível provocar uma condição de buffer underflow ao enviar pacotes menores do que os esperados, criando um cenário que pode resultar na injeção e execução de código malicioso. A investigação mostrou que os chips A12 e A13 são vulneráveis, enquanto o A11 não apresenta o problema devido a diferenças na forma como o driver USB redefine os endereços DMA após cada transferência. Já os chips A14 e posteriores parecem configurar corretamente o mecanismo de proteção DART durante o processo de inicialização, impedindo a exploração da vulnerabilidade. Os pesquisadores compararam o usbliter8 ao famoso exploit checkm8, que afetou gerações anteriores de iPhones equipados com chips entre o A5 e o A11. Assim como ocorreu com o checkm8, a nova descoberta demonstra que falhas de hardware em componentes críticos podem comprometer toda a cadeia de confiança do dispositivo. Embora o Secure Enclave Processor (SEP) não seja diretamente afetado, a Paradigm Shift alerta que a exploração do BootROM amplia significativamente a superfície de ataque e pode facilitar futuras tentativas de comprometimento de componentes considerados altamente seguros dentro da arquitetura dos dispositivos Apple.

  • Estônia quer dar identidade digital a agentes de inteligência artificial

    A Estônia planeja permitir que agentes de inteligência artificial tenham suas próprias identidades digitais, em uma iniciativa que busca tornar verificável e auditável a atuação desses sistemas quando executarem tarefas em nome de pessoas. A proposta é apoiada pelo conselho consultivo Eesti.ai e prevê o desenvolvimento de códigos de identificação que poderão ser utilizados por agentes de IA para realizar ações mediante algum processo de autorização e delegação de tarefas, ainda não detalhado. A iniciativa coloca o país em uma posição de destaque no debate sobre como regular sistemas autônomos capazes de agir em ambientes digitais. A Estônia, já conhecida por sua forte adoção de serviços digitais, afirma que a criação de identidades para agentes de IA ajudaria a esclarecer quem está agindo, em nome de quem, com quais permissões e sob qual responsabilidade. A discussão surge em um momento em que pesquisadores, empresas e governos tentam lidar com a falta de infraestrutura técnica, jurídica e operacional para agentes de IA. No mês passado, pesquisadores ligados à OWASP propuseram o Agent Name Service, voltado à descoberta e interoperabilidade entre agentes. Outro projeto semelhante é o DNS for AI Discovery, que também busca criar mecanismos para identificação e localização de agentes em ambientes digitais. Essas iniciativas, porém, têm foco mais técnico, funcionando como uma espécie de infraestrutura de base para descoberta, comunicação e integração entre plataformas. A proposta da Estônia avança em outra direção: a preocupação central está em autorização, responsabilização e controle. Para o governo estoniano, identidades digitais e permissões limitadas podem evitar cenários em que pessoas sejam obrigadas a conceder poderes amplos demais a agentes de IA, com risco de perda de direitos ou de delegação excessiva. O primeiro-ministro Kristen Michal afirmou que, no futuro, a IA realizará cada vez mais tarefas digitais em nome dos cidadãos, como compilar relatórios, preparar declarações ou interagir com sistemas de informação. Segundo ele, será necessário deixar claro quem age em nome de quem, com quais direitos e quem será o responsável final pelas ações realizadas. Ao anunciar o movimento, a Estônia se apresenta como o primeiro país a criar identidades digitais para agentes de IA. A proposta dialoga com um debate global mais amplo sobre o papel de sistemas autônomos em transações, decisões administrativas e atividades digitais com efeitos concretos no mundo real. Duas semanas antes, o presidente da Argentina, Javier Milei, defendeu uma ideia semelhante em um artigo publicado no Financial Times. Ele apoiou uma legislação para permitir a existência de “corporações não humanas”, gerenciadas por software e com responsabilidade limitada. Para Milei, a responsabilidade limitada não seria um luxo para essas entidades, mas uma condição necessária para sua própria existência. A discussão sobre responsabilidade em sistemas automatizados não é nova. Décadas atrás, a IBM adotou uma posição oposta ao afirmar, em um manual de treinamento de 1979, que um computador nunca poderia ser responsabilizado e, por isso, nunca deveria tomar uma decisão de gestão. A frase voltou a ser citada em um post de 2025 da própria IBM, mas o autor Doug Bonderud adotou um tom menos definitivo ao questionar se a IA deveria ser usada em decisões gerenciais. Para ele, a resposta talvez seja sim, mas o uso de IA em parte dessas decisões parece praticamente inevitável. Enquanto governos estudam mudanças legais para permitir que agentes de IA operem com algum grau de autonomia, empresas privadas já começaram a definir suas próprias regras. A varejista Target revisou seus termos e condições no início deste ano e incluiu uma seção chamada Agentic Commerce and Delegated Access. O texto estabelece que compras e outras ações tomadas por um agente de comércio agentivo autorizado pelo usuário serão consideradas transações autorizadas pelo próprio cliente. A American Express adotou uma abordagem diferente ao tratar da responsabilidade em casos de comércio agentivo. Em abril, ao apresentar seu kit de desenvolvimento para agentic commerce, a empresa informou que, no futuro, se um cliente autorizar um agente de IA a fazer uma compra e esse agente enviar à American Express a intenção de compra autenticada do usuário, a companhia protegerá clientes elegíveis contra cobranças relacionadas a erros do agente de IA. Essas posições mostram como o mercado ainda não tem consenso sobre quem deve assumir o risco quando um agente autônomo age de forma incorreta. Em um modelo, a responsabilidade recai sobre o usuário que autorizou o agente. No outro, a empresa financeira sinaliza disposição para proteger o cliente em determinadas situações, desde que a intenção autenticada de compra tenha sido enviada pelo agente. O problema jurídico foi analisado no artigo preliminar “AI Agents and the Law”, dos professores Mark Riedl e Deven Desai, do Georgia Institute of Technology. Eles observam que, quando agentes de IA passam a ter capacidade de agir de forma a alterar o estado do mundo — por exemplo, realizando transações de comércio eletrônico, e não apenas gerando respostas que dependem de uma ação humana posterior —, as preocupações com danos se tornam mais urgentes. Os autores destacam que o direito está relativamente bem preparado para lidar com conflitos envolvendo agentes humanos, mas não com todas as possibilidades abertas por agentes de software. Embora a ciência da computação e o direito usem o conceito de “agente”, um agente de software não é equivalente a um agente humano. No caso de pessoas, a lei pode impor punições financeiras ou até criminais quando há má conduta. O mesmo não se aplica diretamente a um sistema de software. Até agora, empresas de IA têm buscado limitar sua responsabilidade por danos causados por sistemas automatizados, mas nem sempre com sucesso. No Canadá, um tribunal responsabilizou a Air Canada por informações incorretas fornecidas por um chatbot. Na Alemanha, outro tribunal responsabilizou o Google por conteúdo impreciso gerado pelo AI Overview. Esses casos indicam que a responsabilização por ações ou informações produzidas por sistemas de IA já começou a ser testada nos tribunais, mesmo antes de haver regras plenamente consolidadas para agentes autônomos. A criação de identidades digitais, como propõe a Estônia, pode se tornar uma peça importante para auditoria, rastreabilidade e atribuição de responsabilidade em ambientes onde softwares executam tarefas em nome de pessoas, empresas ou governos. Ainda deve levar tempo até que regras sobre agentes de IA sejam definidas e harmonizadas entre diferentes países. Questões como autorização, responsabilidade civil, limites de atuação, revogação de permissões, auditoria e punição por danos continuam em aberto. No curto prazo, porém, identificadores digitais podem ajudar a diferenciar agentes confiáveis de sistemas problemáticos e permitir que ações indevidas sejam atribuídas a uma entidade específica, mesmo que essa entidade não seja humana.

  • Paciente sem fala por causa da ELA volta a se comunicar com ajuda de IA

    Um avanço liderado por Pesquisadores da University of California, Davis (UC Davis) mostrou que uma interface cérebro-computador (BCI, na sigla em inglês) apoiada por inteligência artificial pode devolver a comunicação oral a uma pessoa com esclerose lateral amiotrófica (ELA). O estudo, publicado nesta semana, descreve como o paciente Casey Harrell, que vive com a doença e perdeu progressivamente o controle motor e a fala, consegue hoje se comunicar, controlar um cursor no computador com o pensamento e até manter um emprego em tempo integral. A ELA, também conhecida como doença de Lou Gehrig, compromete os neurônios motores e leva à perda de movimento, da fala e, com o avanço do quadro, à paralisia. Nesse contexto, as interfaces cérebro-computador vêm sendo estudadas há anos como uma alternativa para permitir que pacientes se comuniquem e interajam com dispositivos digitais por meio da atividade cerebral. O diferencial do trabalho conduzido pela equipe de UC Davis está no fato de transformar essa promessa em um sistema funcional, duradouro e utilizável fora do ambiente controlado de laboratório. Segundo o artigo, Harrell recebeu os implantes em 2023 e continua utilizando o sistema até hoje. De acordo com os pesquisadores, o BCI se manteve operacional com uso diário ao longo de anos, algo apontado como um marco importante para esse tipo de tecnologia. O estudo integra os esforços do consórcio BrainGate, uma coalizão formada por universidades e pelo Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos, voltada a projetos de neurociência para restaurar fala, uso de computadores e, em alguns casos, movimento. David Brandman, neurocirurgião da UC Davis, coautor sênior do estudo e responsável pela cirurgia de implantação, afirmou que os resultados representam a superação de um limite relevante para o setor. O pesquisador destacou não apenas a durabilidade do sistema, mas também sua precisão. Em testes controlados, a plataforma conseguiu sintetizar frases com 99% de acurácia a partir da atividade cerebral de Harrell. No uso diário, fora do laboratório, o próprio paciente avaliou a precisão em 92%. A pesquisa também chama atenção pelo caráter prático da solução. Em trabalhos anteriores envolvendo BCI, era comum que o paciente precisasse ir até o laboratório ou dependesse da presença de pesquisadores em casa para operar o sistema. Neste caso, a equipe de cuidados de Harrell consegue conectá-lo à tecnologia sem a necessidade de suporte constante dos cientistas. Isso permitiu que ele utilizasse o dispositivo por mais de 3.800 horas desde a implantação. Considerando a linha do tempo informada no estudo — submetido à revisão por pares em julho de 2025 e publicado agora —, isso equivale a uma média superior a cinco horas de uso por dia. O impacto dessa autonomia vai além do campo experimental. Segundo Brandman, o sistema permitiu que Harrell retomasse uma rotina mais ativa, incluindo conversas significativas com a filha, que nunca havia ouvido sua voz. O próprio paciente descreveu a experiência, por meio da interface, como uma forma de se comunicar de maneira mais natural do que qualquer outra tecnologia que já tivesse utilizado. Do ponto de vista técnico, o grande salto não esteve no hardware em si. Brandman explicou que o estudo não utilizou um equipamento desenvolvido especificamente para esse projeto, mas sim um desenho de BCI já existente, produzido pela Blackrock Neurotech. O avanço central veio da camada de software e dos algoritmos de aprendizado de máquina desenvolvidos pela equipe da UC Davis. O laboratório construiu uma plataforma própria chamada Brain-computer interface for Rapidly Adaptive Neural Decoding, ou BRAND. Apesar do nome coincidir com o sobrenome de Brandman, o pesquisador disse que a escolha foi coincidental. Dentro dessa plataforma, o pesquisador de pós-doutorado Nick Card desenvolveu algoritmos de machine learning que hoje já são usados em todo o consórcio BrainGate. De acordo com o artigo, os algoritmos do BRAND conseguem traduzir a atividade do giro pré-central ventral — região do cérebro ligada ao controle motor de face, boca e mandíbula — em fonemas da língua inglesa. Em seguida, outras camadas do software fazem o mapeamento desses fonemas para palavras, e das palavras para frases completas. Essa cadeia de processamento é o que viabiliza a síntese de fala com alta precisão e torna o sistema útil para interações do dia a dia. Na prática, isso significa que Harrell consegue se comunicar oralmente e exercer sua profissão em tempo integral como defensor de causas ambientais. O estudo, portanto, não apenas demonstra a viabilidade técnica da interface, mas apresenta um caso real de aplicação contínua em contexto doméstico e profissional. Brandman observa que o mercado de interfaces cérebro-computador já conta com empresas como Neuralink, Synchron e Paradromics trabalhando em objetivos semelhantes. Ele próprio já esteve envolvido em estudos sobre a segurança de tecnologias comerciais da Paradromics. Ainda assim, o foco da equipe da UC Davis não é lançar imediatamente um produto comercial, mas reduzir os riscos técnicos e provar que essas soluções podem ir além de protótipos acadêmicos. Ao comentar o estágio atual dessa tecnologia, o pesquisador comparou o momento das BCIs ao início dos marcapassos cardíacos, nos anos 1950, quando os dispositivos precisavam ficar conectados a equipamentos externos grandes e, muitas vezes, a baterias volumosas ou até diretamente à parede. Décadas depois, os marcapassos se tornaram dispositivos amplamente implantáveis e rotineiros. Para Brandman, as interfaces cérebro-computador ainda estão nesse estágio inicial, mas o caso de Harrell mostra que o caminho para aplicações práticas já começou a se consolidar. Hoje, Harrell ainda depende de computadores externos relativamente volumosos para operar o sistema. Mesmo assim, a combinação entre o avanço em IA demonstrado pela UC Davis e o desenvolvimento de hardware promovido por outras empresas aponta para um futuro mais promissor para pessoas com paralisia e outras limitações motoras severas. O paciente também deixou claro que espera que essa realidade deixe de ser excepcional. Segundo Harrell, ele gostaria de não ser único nesse tipo de tratamento, porque isso significaria que todos os pacientes com a mesma doença teriam acesso ao BCI por prescrição médica, e não apenas em caráter experimental. O consórcio BrainGate segue recrutando voluntários para estudos futuros, o que indica que a pesquisa continua em andamento e que novos testes devem ajudar a ampliar o entendimento sobre segurança, confiabilidade e aplicabilidade clínica dessa tecnologia.

  • Cibercrimes já representam cerca de um terço de todos os delitos na Ásia e no Pacífico Sul, aponta Interpol

    Os crimes cibernéticos já respondem por mais de 30% de todas as infrações registradas na região da Ásia e do Pacífico Sul, segundo os dados mais recentes da Interpol. O levantamento indica uma alta expressiva nos registros de crimes digitais, impulsionada pela expansão da infraestrutura digital, pela adoção de novas tecnologias e pelo nível crescente de organização das redes criminosas que operam na região. O cenário é descrito no mais recente relatório ASP Cyberthreat Assessment Report, no qual a Interpol aponta que golpes online e ataques de phishing continuam dominando o panorama regional de ameaças. A análise, baseada em dados de 2024 e 2025, mostra que as campanhas de phishing evoluíram para além dos disparos massivos e genéricos de e-mails. Hoje, muitas operações se aproximam de técnicas mais sofisticadas, já observadas em outras partes do mundo, com mensagens mais personalizadas, uso de engenharia social e maior capacidade de enganar vítimas específicas. O spear phishing, modalidade direcionada a indivíduos ou organizações previamente selecionadas, tornou-se mais comum. Ao mesmo tempo, o uso crescente de ferramentas de inteligência artificial tem ajudado até criminosos com pouca habilidade técnica a produzir mensagens, imagens, áudios e interações mais convincentes. Esse avanço reduz a barreira de entrada para golpes digitais e aumenta a capacidade de escala das campanhas. Um dos problemas mais graves na região envolve grupos organizados que operam centros de golpes em larga escala, onde centenas de pessoas são obrigadas a participar de atividades criminosas. Esses esquemas, já documentados por autoridades e organizações internacionais, têm presença especialmente relevante em países do Sudeste Asiático, incluindo Camboja, Laos, Myanmar e Filipinas. Um relatório das Nações Unidas publicado no ano passado descreveu os centros de golpes no Sudeste Asiático como uma epidemia que se espalha pela região “como um câncer”. Em muitos casos, pessoas vulneráveis são traficadas para esses complexos e forçadas a trabalhar em condições precárias, incluindo situações comparáveis à escravidão. A Interpol citou uma pesquisa de Singapura segundo a qual a indústria regional de golpes movimenta cerca de US$ 40 bilhões por ano. As ferramentas de IA, especialmente aquelas capazes de gerar imagens falsas e deepfakes convincentes, também se tornaram populares entre criminosos na Ásia e no Pacífico Sul. Em 2024, os mesmos complexos associados a golpes foram identificados usando imagens deepfake para apoiar fraudes românticas, modalidade em que criminosos constroem relações falsas com as vítimas para obter dinheiro ou dados pessoais. Casos recentes mostram como a combinação de engenharia social e deepfakes pode gerar prejuízos financeiros elevados. Em fevereiro de 2024, um funcionário de uma multinacional em Hong Kong foi convencido a autorizar uma transferência de US$ 25 milhões depois que rostos de executivos da empresa foram falsificados de forma convincente em uma videochamada. Um caso semelhante foi relatado em Singapura em março de 2025, quando o diretor financeiro de outra multinacional foi enganado a transferir mais de US$ 499 milhões após uma reunião pelo Zoom em que fraudadores assumiram as identidades de líderes da empresa, incluindo o CEO e o CFO. Para a Interpol, esses episódios ilustram como as ameaças cibernéticas deixaram de ser incidentes isolados e passaram a representar desafios transnacionais de larga escala. As operações criminosas combinam fraude financeira, abuso de identidade, manipulação psicológica, uso de IA generativa e infraestrutura digital distribuída, dificultando investigações e ampliando o alcance dos ataques. Além dos golpes, infostealers e trojans bancários aparecem como a segunda categoria mais disseminada de cibercrime na região. Essas ameaças afetam tanto indivíduos quanto organizações. Os infostealers são malwares projetados para roubar credenciais, cookies de sessão, dados de navegadores, carteiras digitais e outras informações sensíveis. Em muitos casos, infecções desse tipo servem como ponto de partida para fraudes em larga escala, comprometimento de contas corporativas e distribuição posterior de ransomware. O ransomware aparece logo atrás dos infostealers no levantamento da Interpol e foi classificado como uma ameaça regional significativa, associada a perdas financeiras relevantes. Os invasores têm adotado táticas comuns no ecossistema global de extorsão digital, incluindo a dupla extorsão, em que os dados são criptografados e, ao mesmo tempo, ameaçados de vazamento público caso a vítima não pague o resgate. Segundo o relatório, os operadores de ransomware têm mirado infraestrutura crítica, organizações de saúde e grandes empresas. Mais de 135 mil ataques de ransomware foram registrados em 2024, e esse tipo de ameaça também esteve presente em 51% dos casos de violação de dados. O dado reforça o papel do ransomware como uma das principais ferramentas de monetização do cibercrime organizado. A digitalização acelerada na Ásia e no Pacífico Sul cria novas oportunidades econômicas para países da região, mas também amplia a superfície de ataque. Órgãos de aplicação da lei enfrentam dificuldades para acompanhar o ritmo de crescimento dos crimes cibernéticos, especialmente pela falta de ferramentas especializadas, profissionais treinados e capacidade operacional para investigar ataques digitais complexos. A situação é ainda mais crítica em países em desenvolvimento e pequenos Estados insulares do Pacífico, que enfrentam restrições significativas de recursos e capacidade técnica. Esses locais se tornam mais vulneráveis a ataques diretos, já que criminosos podem enxergar maior chance de operar sem consequências imediatas. Neal Jetton, diretor de cibercrime da Interpol, afirmou que os resultados do relatório apontam para uma paisagem de ameaças em rápida evolução na Ásia e no Pacífico Sul. Segundo ele, os criminosos estão usando inteligência artificial, modelos de ransomware como serviço e técnicas sofisticadas de engenharia social em escala industrial. Jetton também destacou que, conforme a adoção digital acelera na região, o fortalecimento da cooperação operacional, do compartilhamento de informações e da resiliência cibernética se torna essencial para proteger comunidades e infraestruturas críticas. Apesar do avanço das ameaças, a Interpol reconheceu que algumas jurisdições e governos da região têm adotado medidas proativas para conter o crescimento do cibercrime. Hong Kong e a República da Coreia foram citados como exemplos de locais que avançaram com novas legislações de cibersegurança. Outros países estabeleceram forças-tarefa nacionais, formalizaram planos de ação e lançaram campanhas de conscientização pública. Ainda assim, o aumento dos crimes cibernéticos não é um problema restrito à Ásia e ao Pacífico Sul. Mesmo países com estruturas regulatórias e legislativas mais maduras continuam enfrentando desafios semelhantes. A Interpol observa que não coleta dados de cibercrime em regiões como Europa e América do Norte da mesma forma que faz para a Ásia e o Pacífico Sul, mas indicadores disponíveis mostram que o problema permanece disseminado. No Reino Unido, o Office for National Statistics informou que os crimes de uso indevido de computadores na Inglaterra e no País de Gales caíram 58% em 2025 em comparação com 2017. Ainda assim, foram estimados 735 mil casos ao longo do ano. Quando o escopo é ampliado para crimes apoiados por meios cibernéticos, como fraudes bancárias e com cartões de crédito, essas ocorrências representaram mais de 2,7 milhões de um total aproximado de 9,6 milhões de crimes. Nos Estados Unidos, o FBI publica anualmente o relatório IC3, que acompanha denúncias de crimes cibernéticos no país. Embora o documento não compare diretamente esses casos com o total de crimes ou outras categorias de delitos, o relatório mais recente, referente aos dados de 2025, mostrou que as denúncias de cibercrime ultrapassaram a marca de um milhão pela primeira vez, enquanto as perdas totais chegaram ao recorde de US$ 20,87 bilhões. O levantamento da Interpol indica que a região da Ásia e do Pacífico Sul se tornou um dos principais pontos de atenção para o combate ao cibercrime global. A combinação de golpes digitais industrializados, uso de IA, deepfakes, infostealers, trojans bancários e ransomware pressiona governos, empresas e forças de segurança a responderem a ameaças que cruzam fronteiras e se adaptam rapidamente. O relatório também deixa evidente que a resposta ao cibercrime depende de mais do que tecnologia. Cooperação internacional, legislação atualizada, capacitação de investigadores, compartilhamento de inteligência e campanhas de conscientização são elementos centrais para reduzir o impacto de ataques que afetam tanto grandes organizações quanto usuários comuns.

  • Governo dos EUA teria bloqueado IA da Anthropic por causa de pedido simples de correção de código

    A restrição imposta pelo governo dos Estados Unidos aos modelos avançados da Anthropic teria sido motivada não por um jailbreak sofisticado, mas por um comando simples de três palavras: “Fix this code”. A afirmação é de Katie Moussouris, fundadora e CEO da Luta Security e uma das principais referências em programas de bug bounty, que diz ter sido a única especialista externa a ler o artigo de pesquisa de terceiros sobre as supostas técnicas de bypass de guardrails do Fable 5. Na sexta-feira, o governo norte-americano, citando preocupações de segurança nacional, emitiu uma diretriz de controle de exportação para suspender o acesso aos modelos Fable 5 e Mythos 5 por qualquer cidadão estrangeiro, dentro ou fora dos Estados Unidos. Em resposta, a Anthropic desativou ambos os modelos para todos os seus clientes, como forma de garantir conformidade com a determinação. Segundo Moussouris, a Anthropic compartilhou o relatório de forma privada com ela. O estudo teria envolvido testes nos modelos Fable 5, Mythos e Claude Opus com códigos open source que continham CVEs conhecidas, além de novos trechos de código intencionalmente criados com vulnerabilidades. Inicialmente, os pesquisadores teriam pedido aos modelos que revisassem o código em busca de falhas de segurança. De acordo com o relato da pesquisadora, o Fable 5 recusou essa primeira solicitação. Em seguida, os pesquisadores reformularam o pedido e solicitaram apenas que o sistema corrigisse o código. O modelo teria atendido à instrução e, após prompts adicionais, também gerado scripts para testar os patches produzidos. Para Moussouris, esse fluxo não caracteriza um jailbreak real nem uma violação sofisticada de mecanismos de segurança. Em seu blog, ela argumentou que pedir a uma IA para encontrar, corrigir e testar falhas em código é uma atividade defensiva legítima, comum no trabalho diário de profissionais de segurança. Na avaliação da pesquisadora, um pedido como “corrija este código”, acompanhado de etapas manuais para criação de testes, não deveria ter acionado uma medida de controle de exportação. Entre 2013 e 2017, Moussouris integrou o grupo técnico de especialistas que renegociou o Acordo de Wassenaar, pacto voluntário entre 42 países que regula determinados controles de exportação para softwares e tecnologias classificados como de uso dual. O grupo conseguiu estabelecer exceções para atividades defensivas de cibersegurança, permitindo que profissionais compartilhem dados de vulnerabilidades, realizem análise de malware e coordenem respostas a incidentes internacionalmente sem risco de criminalização indevida. No domingo, Moussouris se juntou a mais de 100 líderes de cibersegurança em uma carta aberta pedindo que a administração Trump revertesse as restrições ao Fable 5 e ao Mythos 5 e restaurasse o acesso de empresas de segurança aos modelos avançados. O argumento central do grupo é que retirar das equipes defensivas as melhores capacidades disponíveis, sem uma justificativa técnica sólida, pode ser perigoso em um momento em que adversários também avançam rapidamente. Em sua análise, Moussouris afirma que não houve um bypass de guardrail nem um jailbreak no sentido técnico do termo. Para ela, defensores devem poder pedir a sistemas de IA que identifiquem falhas, proponham correções e escrevam testes para validar se o problema foi resolvido. Segundo a pesquisadora, os modelos da Anthropic estavam executando justamente um ciclo de trabalho considerado valioso para segurança defensiva: encontrar, corrigir e testar vulnerabilidades. A remoção dessa capacidade, na visão da especialista, pode tornar os modelos menos úteis para encontrar bugs e verificar patches. Isso afetaria diretamente equipes de segurança, desenvolvedores e pesquisadores que utilizam IA para acelerar análise de código, reduzir exposição a vulnerabilidades conhecidas e validar correções antes da implantação em produção. Moussouris também argumenta que os Estados Unidos não conseguiriam aplicar o mesmo tipo de controle a sistemas open-weight ou a modelos avançados desenvolvidos por empresas de outros países, incluindo a China. A pesquisadora avalia que esses modelos provavelmente alcançarão capacidades semelhantes às do Mythos em curto prazo, o que limitaria a efetividade prática da restrição. O debate ocorre em um contexto de tensão crescente sobre o uso de inteligência artificial em segurança cibernética. Anthropic e Google já acusaram concorrentes chineses, incluindo a DeepSeek, de usar ataques de destilação para treinar modelos com conhecimento extraído de sistemas de IA de empresas norte-americanas. Esse tipo de prática envolve a tentativa de replicar capacidades de modelos proprietários por meio da observação ou extração indireta de suas respostas. Para Moussouris, bloquear o acesso aos modelos avançados da Anthropic tende a prejudicar mais os defensores do que os atacantes. A lógica apresentada pela pesquisadora é que a defesa melhora quando profissionais de segurança conseguem encontrar os mesmos bugs que invasores encontrariam e corrigi-los mais rapidamente. Em um cenário de ataques cada vez mais automatizados e apoiados por IA, ela defende que equipes defensivas precisam ter acesso às ferramentas mais capazes.

  • Tesco abandona VMware após disputa com a Broadcom

    A Tesco, uma das maiores redes varejistas do Reino Unido, decidiu substituir a VMware por uma solução alternativa enquanto mantém uma disputa judicial contra a Broadcom, atual controladora da empresa de virtualização. O caso, que envolve licenciamento, suporte e alegações de comportamento anticompetitivo, só deve ser analisado pela High Court do Reino Unido a partir de novembro de 2027. A origem do conflito está em um contrato firmado em janeiro de 2021, quando a Tesco adquiriu licenças perpétuas dos produtos VMware vSphere Foundation e Cloud Foundation, além de assinaturas para soluções Tanzu. O acordo também incluía serviços de suporte e atualizações de software até 2026, com opção de extensão por mais quatro anos. A Computacenter atuou como revendedora, enquanto a Dell foi usada como distribuidora dos produtos VMware. Além das soluções de virtualização, a Tesco também utiliza softwares de mainframe da Broadcom e buscava estender licenças e suporte para esses produtos. O cenário mudou após a aquisição da VMware pela Broadcom, que deixou de vender serviços independentes para clientes que não migrassem para os pacotes de software por assinatura da companhia. Com isso, a Broadcom se recusou a estender o suporte ao ambiente VMware da Tesco nos termos esperados pela varejista. A rede de supermercados entrou com ação judicial contra a Broadcom em meados de 2025, acusando a empresa de quebra de contrato e conduta anticompetitiva. Novos documentos apresentados ao processo no fim de maio mostram que a Tesco decidiu abandonar tanto a VMware quanto os produtos de mainframe da Broadcom, enquanto acelera uma migração considerada arriscada para soluções alternativas. Segundo os documentos, a Tesco afirma que, diante da conduta da Broadcom e da criticidade dos softwares de virtualização e mainframe para seus negócios, foi obrigada a assumir custos materiais para contratar alternativas com funcionalidade reduzida. A varejista também alega que a migração precisa ser realizada em um prazo que cria riscos significativos para suas operações. Entre esses custos estão pagamentos a fornecedores terceirizados de suporte para o ambiente VMware, já que a Broadcom teria interrompido o suporte ao software de virtualização em janeiro de 2026. A Tesco espera concluir a saída da VMware até o fim de 2027, mas afirma que essa é a data mais cedo possível e que o objetivo exigirá trabalho em “ritmo excepcional”. A pressa amplia os riscos operacionais e comerciais. Em outra parte do processo, a Tesco afirma que o prazo imposto para a migração já gerou e continua gerando risco operacional, custo material recorrente e interrupções ao negócio. O impacto potencial não é abstrato: a empresa diz usar softwares de mainframe da Broadcom para fazer pedidos de produtos para suas lojas e processar sua folha de pagamento. Também há preocupação com segurança e proteção de dados. A solução de virtualização escolhida para substituir a VMware não é compatível com as ferramentas Veeam e Zerto utilizadas pela Tesco. Na prática, isso pode afetar processos de backup, recuperação, replicação e continuidade de negócios, áreas sensíveis em uma operação varejista de grande escala. Os documentos também mostram que a Broadcom teria apresentado pelo menos quatro propostas à Tesco. Uma delas, chamada de “proposta estratégica”, foi enviada em julho de 2024 e cobria produtos de virtualização e mainframe. Outra oferta, apresentada em 9 de janeiro de 2026, trouxe termos separados para produtos VMware e softwares de mainframe, a primeira vez em que a Broadcom ofereceu acordos distintos. A Tesco afirma, porém, que teve dificuldade para avaliar a proposta porque ela foi enviada apenas 19 dias antes do encerramento dos contratos existentes. Outras duas propostas chegaram em abril. De acordo com a Tesco, uma delas previa cobrança de US$ 23,5 milhões, cerca de £17,4 milhões, por um ano de VMware Cloud Foundation 9.0 e serviços de software e suporte para mainframe. A varejista afirma que esse valor representaria aumento de aproximadamente 175% em relação aos preços que entende ter direito sob o contrato de 2021 para software e serviços VMware, além de alta de 350% para produtos e serviços de mainframe. A Tesco classificou os reajustes como “manifestamente injustos e excessivos”. A Broadcom, em sua defesa alterada, rejeita essa caracterização e também contesta o argumento de que a Tesco teria direito a indenização por não conseguir encontrar um fornecedor alternativo antes do vencimento dos contratos. Como a varejista agora encontrou alternativas, a Broadcom sustenta que a empresa teria mais dificuldade para demonstrar perdas passíveis de compensação financeira. O processo está previsto para ser ouvido pela High Court do Reino Unido em uma janela que começa em 1º de novembro de 2027 e termina em 25 de fevereiro de 2028. Isso não significa que o julgamento ocupará todo esse período, mas indica quando o tribunal estima ter disponibilidade para analisar o caso. A Broadcom já enfrentou outras disputas relevantes relacionadas às mudanças em seu modelo de licenciamento após a aquisição da VMware. Entre os casos de maior destaque estão disputas com a AT&T e a Siemens. A AT&T chegou a um acordo confidencial, enquanto o caso da Siemens continua em andamento. Os documentos da Tesco sugerem que a varejista está disposta a sustentar judicialmente que a Broadcom se recusou a honrar acordos anteriores e que sua principal defesa, baseada na reorganização dos produtos VMware, seria frágil. Executivos da Broadcom já afirmaram que a empresa tem forte resistência a oferecer suporte estendido para produtos antigos e prefere migrar clientes para assinaturas do VMware Cloud Foundation, principal pacote da companhia. A Broadcom defende que continuar usando softwares VMware antigos vendidos sob licenças perpétuas seria prejudicial para as próprias empresas, pois o VCF teria capacidade de melhorar operações de TI e eficiência de negócios a ponto de se pagar rapidamente. Essa mensagem, porém, não tem convencido todos os clientes. Organizações como Western Union, GEICO e Computershare foram citadas entre as empresas que estão se afastando da VMware. Até parceiros da VMware, como a Rackspace, estariam reduzindo o uso das soluções da companhia. O movimento também aparece fora do ambiente corporativo tradicional. O instituto técnico secundário belga Scheppers Instituut Wetteren migrou para a provedora local Whitesky.Cloud para evitar um aumento de 400% nos custos. A instituição teria feito a troca sem precisar adquirir novo hardware. O caso da Tesco amplia a pressão sobre a estratégia da Broadcom para a VMware e expõe um desafio relevante para grandes empresas: migrar infraestruturas críticas de virtualização e mainframe não é apenas uma decisão comercial. Envolve continuidade operacional, compatibilidade com ferramentas de backup e recuperação, segurança de dados, governança de contratos e risco de interrupção em processos essenciais para o negócio.

  • Ataque rouba senhas de 75 mil firewalls Fortinet no mundo

    Cerca de 75 mil firewalls Fortinet teriam sido afetados por uma ampla campanha de roubo de credenciais, com exposição de senhas associadas a dispositivos FortiGate usados por empresas em 194 países. A atividade, descrita por pesquisadores de segurança como uma operação de grande escala contra interfaces VPN SSL e administrativas, teria atingido contas ligadas a grandes corporações globais, incluindo FoxConn, Samsung, Comcast, Siemens, Lenovo, FedEx, PxW, Accenture, Oracle e outras organizações. A análise da Hudson Rock aponta que o vazamento envolve 21.632 domínios únicos. Segundo a empresa, os dados verificados indicam a existência de uma base de credenciais funcionais associadas a algumas das maiores empresas do mundo, com impacto potencial em praticamente todos os setores da economia global. A recomendação imediata para organizações que utilizam firewalls Fortinet é revisar se seus domínios aparecem entre os afetados, redefinir todas as senhas vinculadas a VPNs Fortinet e interfaces administrativas, além de garantir que a autenticação multifator esteja habilitada. O risco é considerado elevado porque credenciais válidas de firewall podem oferecer aos invasores acesso remoto direto não apenas ao equipamento de borda, mas também a partes sensíveis da rede corporativa. Em ambientes mal segmentados ou com controles internos frágeis, esse tipo de acesso pode facilitar movimentação lateral, coleta de informações, abuso de contas privilegiadas e comprometimento de sistemas internos. O pesquisador Volodymyr “Bob” Diachenko afirmou ter identificado inicialmente as intrusões e associou a operação a um grupo de língua russa. Segundo ele, os invasores interceptam autenticações de VPN SSL, quebram hashes com o apoio de um cluster de 45 GPUs gerenciado via Hashtopolis e, em seguida, avançam para ambientes internos de Active Directory. Esse fluxo sugere uma cadeia de ataque voltada não apenas ao roubo de credenciais, mas também ao acesso persistente e à expansão dentro das redes comprometidas. De acordo com Diachenko, a operação processou 1,16 bilhão de tentativas de credenciais contra 320.777 alvos FortiGate e 2,1 bilhões de tentativas contra 163.650 servidores MSSQL. O pesquisador também afirmou que ao menos quatro organizações foram totalmente comprometidas, incluindo uma contratada turca de defesa ligada à OTAN, caso em que documentos classificados de defesa teriam sido roubados. O pesquisador Kevin Beaumont, que também analisou parte das credenciais expostas, afirmou que os dados são legítimos. Segundo ele, logins e senhas verificados pertenciam a organizações com as quais já havia trabalhado, e muitos dos dispositivos avaliados estavam em versões relativamente recentes de correção. A observação é relevante porque indica que o problema pode não estar restrito a equipamentos abandonados ou sem atualização, embora a origem exata das credenciais ainda seja contestada. Dados do mecanismo de busca Shodan indicam que o volume de dispositivos envolvidos corresponderia a aproximadamente metade dos firewalls Fortinet expostos diretamente à internet. Beaumont também observou que a maioria dos equipamentos comprometidos continuava online, o que aumenta o risco de uso ativo das credenciais por outros grupos criminosos, operadores de ransomware ou agentes interessados em espionagem corporativa e governamental. Após a publicação original da reportagem pelo The Register, a Fortinet negou que os ataques sejam recentes. Em nota enviada ao veículo, a empresa afirmou que, com base em sua análise, os dados seriam uma republicação de informações provenientes de incidentes anteriores, além de tentativas de força bruta contra credenciais, sem relação com qualquer incidente ou alerta recente. A companhia também disse que organizações que seguem boas práticas rotineiras, incluindo a atualização periódica de credenciais de segurança conforme orientação publicada em março, enfrentam risco mínimo diante dos detalhes mencionados na reportagem. O The Register informou ter procurado as empresas supostamente afetadas pela campanha chamada FortiBleed. A Lenovo afirmou que estava analisando o caso, enquanto as demais organizações citadas não responderam até a publicação. Mesmo com a posição da Fortinet, o caso exige atenção imediata de equipes de segurança, especialmente em empresas que utilizam FortiGate para acesso remoto, VPN SSL ou administração exposta à internet. A rotação de senhas, a validação de logs de autenticação, a revisão de acessos administrativos, a aplicação de autenticação multifator e a investigação de possíveis sinais de movimentação lateral em Active Directory são medidas essenciais para reduzir o risco de exploração das credenciais vazadas.

  • Apple tenta reconquistar desenvolvedores com IA focada em privacidade, contexto e integração nativa

    Depois de tropeçar em sua primeira fase com o Apple Intelligence, a Apple apresentou na Worldwide Developers Conference de 2026 uma estratégia mais sóbria para inteligência artificial, com foco em integração aos produtos, privacidade e uso prático para desenvolvedores e usuários. A abordagem contrasta com o discurso mais agressivo de parte do mercado de IA generativa, marcado por promessas amplas sobre substituição de tarefas, automação extrema e modelos cada vez mais caros. A nova fase da Apple Intelligence busca posicionar a IA como uma camada discreta, nativa e útil dentro do ecossistema da empresa. Em vez de vender a tecnologia como uma ruptura completa no uso de computadores e smartphones, a companhia destacou recursos mais específicos, como o Notify Me do Safari, que permite receber alertas sobre mudanças em sites, e o Describe an Extension, serviço de baixa complexidade para criação de extensões do navegador a partir de descrições. A mudança de tom também reflete o desempenho abaixo do esperado do Apple Intelligence desde sua apresentação em 2024. A Apple prometeu recursos ambiciosos, mas parte das entregas demorou mais do que o previsto ou chegou com limitações. Na WWDC 2026, a empresa procurou reconstruir essa narrativa com menos ênfase em slogans e mais foco em melhorias concretas para plataformas, segurança infantil e recursos de inteligência artificial. Entre os avanços gerais das plataformas, a Apple citou abertura de aplicativos até 30% mais rápida, carregamento do app Fotos 70% mais veloz e um CPU Scheduler mais eficiente. Embora essas melhorias sejam menos chamativas do ponto de vista de marketing, elas podem ter impacto direto na experiência dos usuários. A frente de segurança infantil, por sua vez, foi apresentada como parte de um esforço para ampliar controles e limites de uso em determinados contextos. O ponto central do anúncio, porém, foi a nova fase do Apple Intelligence. Francisco Jeronimo, vice-presidente de dispositivos clientes da IDC, afirmou ao The Register que a Apple está tentando reconstruir a IA “do zero” para torná-la nativa, útil e invisível nos dispositivos que as pessoas já utilizam diariamente. Segundo ele, a experiência de IA vencedora para consumidores não será necessariamente a mais barulhenta ou tecnicamente complexa, mas aquela capaz de entender contexto, respeitar privacidade, funcionar de forma confiável entre aplicativos e reduzir atritos sem obrigar usuários a mudar seus hábitos. Boa parte da apresentação para desenvolvedores foi dedicada à Siri, agora rebatizada como Siri AI. A nova versão deve chegar ao público geral com a versão 27 das plataformas da Apple, prevista para o outono do hemisfério norte. Desenvolvedores já podem acessar versões aprimoradas desses lançamentos. Além de defender que a Siri finalmente está mais adequada ao uso cotidiano, executivos da Apple destacaram vantagens competitivas da empresa em privacidade, integração vertical e custo. A mensagem foi direcionada principalmente a desenvolvedores interessados em criar aplicações com IA dentro das plataformas Apple e usando a linguagem Swift. Craig Federighi, vice-presidente sênior de engenharia de software da Apple, afirmou que muitos provedores de IA falam sobre privacidade, mas mantêm, por padrão, interações pessoais dos usuários. Segundo ele, isso transfere ao próprio usuário a responsabilidade de proteger seus dados, seja por meio de chats temporários, exclusão manual de conversas ou desativação de recursos inteiros. “Na Apple, acreditamos que privacidade em IA não é negociável”, disse o executivo. A Apple já foi criticada no passado por prometer privacidade como princípio absoluto e, em determinados contextos, tratá-la como uma concessão condicionada a exigências regulatórias ou governamentais. Ainda assim, sua arquitetura de IA baseada no Private Cloud Compute tem sido considerada uma proposta relevante para lidar com dados sensíveis em modelos de inteligência artificial. A estratégia ganhou força suficiente para influenciar até concorrentes, incluindo o Google. Para desenvolvedores, o ponto técnico mais importante é que aplicações com IA precisam considerar segurança e privacidade desde a concepção. Modelos em nuvem podem capturar dados sensíveis, especialmente quando recebem contexto de aplicativos, documentos, mensagens ou atividades do usuário. A Apple tenta responder a esse risco oferecendo o Foundation Models framework, baseado na família de modelos Gemini do Google e agora com capacidades multimodais, com execução tanto no dispositivo quanto no Private Cloud Compute. A empresa também permite integração com provedores externos de modelos em nuvem e modelos personalizados quando necessário. Outro diferencial apresentado foi o custo. A Apple reconhece que nem todos os desenvolvedores podem assumir o risco de conectar seus aplicativos a APIs pagas de IA, como Claude ou Codex, especialmente quando o consumo de tokens pode gerar despesas superiores à receita do próprio aplicativo. Para reduzir essa barreira, a empresa anunciou que desenvolvedores com menos de dois milhões de primeiros downloads na App Store poderão usar os Apple Foundation Models rodando no Private Cloud Compute sem custo de API em nuvem. Joshua Shaffer, diretor sênior de software da Apple, afirmou durante a apresentação Platforms State of the Union que a proposta é oferecer acesso a uma inteligência de nível avançado com proteções de privacidade elevadas, sem que ideias iniciais sejam limitadas por custos de infraestrutura. Na prática, a medida pode tornar o ecossistema Apple mais atraente para pequenos desenvolvedores e startups que desejam testar funcionalidades de IA sem depender imediatamente de provedores externos. A Apple também tenta resolver um dos principais desafios da IA aplicada a produtos de consumo: o acesso a contexto. Modelos de IA funcionam melhor quando conseguem entender informações relevantes sobre o usuário, seus arquivos, aplicativos e atividades. No entanto, esse contexto costuma ficar isolado por limites entre aplicativos, permissões e controles de privacidade. Como a Apple controla tanto o hardware quanto o software de seu ecossistema, a empresa pode integrar esses elementos de forma mais profunda. Uma das mudanças anunciadas envolve o Spotlight, serviço de indexação e busca local da Apple. O recurso foi reescrito para melhorar sua confiabilidade, após anos de críticas relacionadas a falhas de indexação e resultados inconsistentes. Agora, o Spotlight também foi integrado à Siri AI, com o objetivo de tornar mais eficiente a localização de arquivos e a apresentação de dados relevantes dentro de aplicativos para responder consultas baseadas em IA. O Xcode 27 também recebeu melhorias voltadas ao desenvolvimento com IA. Uma mudança importante já havia chegado em fevereiro, quando o Xcode 26.3 passou a oferecer suporte ao Claude Agent, da Anthropic, e ao Codex, da OpenAI. A lista agora foi ampliada para incluir o Gemini, do Google, além de recursos de customização de agentes. Essa integração pode ser relevante para desenvolvedores menos experientes no ecossistema Apple, já que o Xcode é uma ferramenta poderosa, mas frequentemente considerada complexa por quem não trabalha regularmente com as plataformas da empresa. Outro avanço está no App Intents framework, que foi expandido para permitir melhor uso das capacidades da Siri AI. A estrutura passa a apoiar entendimento de contexto pessoal, acesso a ações de aplicativos e atividades exibidas na tela, permitindo que desenvolvedores tornem seus apps mais acessíveis a interações inteligentes e contextuais. A Apple também apresentou o novo Core AI framework, descrito como uma API moderna e segura em memória para Swift. A proposta é permitir que desenvolvedores carreguem, especializem e executem modelos de IA inteiramente no dispositivo, mantendo dados dos usuários em ambiente local, preservando a capacidade de resposta dos aplicativos e eliminando dependências de servidores ou custos por token. Se empresas líderes em modelos avançados, como Anthropic e OpenAI, continuarem elevando preços ou condicionando recursos a APIs externas, a estratégia local da Apple pode se tornar mais atraente. O reposicionamento ainda não elimina as dúvidas criadas pelo desempenho inicial do Apple Intelligence, mas indica uma tentativa clara de diferenciar a empresa por privacidade, integração com o sistema operacional, controle de custos e uso contextual da IA.

  • Windows da era XP aparece em erro de sistema em estação de trem automatizado de Londres

    Passageiros da Docklands Light Railway, a DLR, em Londres, se depararam com uma cena incomum em uma das estações da linha automatizada: uma tela de sinalização exibindo um erro de aplicativo com aparência típica de sistemas Windows antigos, possivelmente da era do Windows XP ou do Windows Server 2003. O caso foi registrado na estação Limehouse por Tim Hayward, leitor do The Register. A tela mostrava uma falha envolvendo o aplicativo DaisySignApp.exe, aparentemente responsável por alguma função de exibição ou sinalização digital no ambiente da estação. Embora a interface do Windows estivesse bastante reduzida, sem vários elementos visuais associados ao Windows XP, o ícone da Lixeira indicava a possível origem do sistema operacional. Hayward sugeriu que o equipamento ainda poderia estar usando Windows XP, mas também existe a possibilidade de se tratar de Windows Server 2003. Em ambos os casos, o software estaria bastante defasado. O suporte ao Windows XP foi encerrado pela Microsoft em 2014, enquanto o Windows Server 2003 deixou de receber suporte em 2015. Isso significa que, se a tela realmente estiver baseada em uma dessas plataformas, ela opera há mais de uma década sem suporte oficial do fabricante. A presença de sistemas antigos em ambientes de transporte, indústria, varejo e infraestrutura crítica não é incomum. Muitas vezes, equipamentos de sinalização, controle ou automação são projetados para funcionar por longos ciclos de vida e acabam mantidos em operação enquanto continuam cumprindo sua função básica. Para administradores de TI, esse tipo de situação representa um dilema recorrente. Sistemas legados podem permanecer estáveis por anos, mas a falta de atualizações de segurança, suporte técnico e compatibilidade com tecnologias modernas aumenta riscos operacionais e dificulta a manutenção. No caso observado na DLR, não há indicação de que o sistema operacional tenha sido a causa direta do problema. A falha parece estar relacionada ao DaisySignApp.exe, que deveria lidar com sua própria exceção sem expor uma janela de erro diretamente aos passageiros. Ainda assim, a exibição pública da falha chamou atenção justamente por revelar sinais de uma plataforma antiga em uso. A estação Limehouse conecta a Docklands Light Railway aos serviços ferroviários da National Rail no Reino Unido. Ela está entre as primeiras estações da DLR e foi inaugurada antes mesmo dos sistemas operacionais que agora parecem aparecer na tela com erro. A DLR começou a operar em 1987, período em que a Microsoft ainda preparava o lançamento do Windows 2.0. Na época, tanto a ferrovia automatizada quanto a evolução das interfaces gráficas representavam visões de futuro. Décadas depois, a presença de um sistema com aparência da era XP em uma estação moderna cria um contraste curioso entre inovação e legado tecnológico. A própria DLR combina elementos de diferentes épocas. Apesar de ser conhecida como uma ferrovia leve automatizada e sem condutores tradicionais, parte de sua infraestrutura utiliza antigos viadutos ferroviários reaproveitados, reforçando a convivência entre tecnologias recentes e estruturas históricas. O episódio também levanta uma discussão mais ampla sobre modernização de sistemas em infraestrutura pública. Telas de informação, validadores, equipamentos de controle, sistemas de bilhetagem e painéis operacionais podem depender de softwares antigos, muitas vezes integrados a hardware específico e difíceis de substituir rapidamente. Do ponto de vista de segurança, a principal preocupação em ambientes legados não é apenas a idade do sistema, mas sua exposição, conectividade e nível de isolamento. Um equipamento antigo, sem acesso direto à internet e bem segmentado, pode apresentar risco menor do que um sistema igualmente antigo conectado a redes amplas ou administrado sem controles adequados. Ainda assim, plataformas sem suporte oficial exigem atenção. A ausência de correções de segurança, a dificuldade de obter suporte especializado e a possibilidade de incompatibilidade com ferramentas modernas de monitoramento tornam esses ambientes mais frágeis diante de falhas, incidentes ou necessidades de recuperação. Para organizações que operam infraestrutura pública, o caso serve como lembrete de que sistemas legados devem ser inventariados, monitorados e incluídos em planos de atualização. Mesmo quando não há urgência aparente, a substituição gradual ou o isolamento adequado desses componentes reduz riscos de indisponibilidade e exposição. No episódio da estação Limehouse, o impacto visível foi apenas uma janela de erro exposta aos passageiros. Mas a cena ilustra como tecnologias antigas continuam presentes em serviços cotidianos e como falhas simples podem revelar camadas inteiras de infraestrutura que normalmente permanecem invisíveis ao público.

  • Ex-funcionário de TI é preso por sabotar sistemas de escola nos EUA

    Um ex-funcionário de TI foi condenado a 21 meses de prisão nos Estados Unidos após admitir ter sabotado sistemas de seu antigo empregador, o Saydel Community School District, em Iowa, por mais de um ano e meio. Ezekiel Dean Potter, de 34 anos, havia sido demitido de seu cargo de suporte de TI no distrito escolar em abril de 2023. Segundo documentos judiciais, ele foi considerado culpado por causar diferentes danos técnicos aos sistemas da instituição entre maio de 2023 e janeiro de 2025. Durante a audiência de sentença, realizada em 11 de junho, o tribunal foi informado de que Potter havia coletado e armazenado mais de 300 credenciais de contas de usuários do Saydel antes de ser desligado da função. Esse acesso indevido se tornou a base para uma série de ações posteriores contra ambientes digitais usados pela escola. Entre as ações atribuídas a Potter está a exclusão da página do Facebook do distrito em 1º de junho de 2023. De acordo com a promotoria, ele era uma das duas únicas pessoas da equipe de TI com privilégios necessários para fazer alterações na conta da rede social. A exclusão foi permanente, e o distrito precisou criar uma nova página em agosto. O ex-funcionário também apagou dados relacionados ao programa Apple School Manager, utilizado para gerenciar dispositivos como Macs e iPads no ambiente educacional. A ação prejudicou a capacidade da equipe de TI de administrar os equipamentos da instituição. Após a invasão ao Apple School Manager em 14 de junho de 2023, a equipe de TI do distrito precisou trabalhar com a Apple por uma semana para restaurar o acesso. Documentos judiciais apontam que Potter removeu senhas de usuários, números de telefone, informações de faturamento e dados do principal servidor de gerenciamento de dispositivos móveis. Ele também tentou excluir todas as contas de usuários e restringiu o acesso de contas que ainda permaneciam ativas. Na prática, as ações afetaram a administração de identidades, dispositivos e serviços essenciais para o funcionamento do ambiente escolar. Entre julho e agosto de 2023, Potter voltou a agir contra contas ligadas ao distrito, tentando interferir no ambiente da GoDaddy. Segundo os autos, ele tentou redefinir nomes de usuário e senhas, mas não teve sucesso. Ainda assim, acessou a conta da GoDaddy pelo menos 26 vezes. Em uma dessas ocasiões, o acesso foi feito usando um computador fornecido por seu empregador posterior, a Casey’s, rede de lojas de conveniência e pizzarias. O detalhe foi citado como parte da investigação sobre a continuidade das ações após sua saída do distrito escolar. Depois de um intervalo prolongado, Potter conseguiu acessar contas Google e Gmail do distrito em outubro de 2024, conforme os documentos judiciais. No entanto, ele só voltou a agir meses depois, em janeiro de 2025. Na ocasião, ele acessou a plataforma de aprendizagem Schoology, baseada no PowerSchool, usando uma das contas Google do distrito às quais ainda tinha acesso. Em seguida, excluiu a conta de um dos profissionais de TI da organização. A exclusão teve efeito direto durante um dia letivo. Professores ficaram sem acesso ao ambiente por cerca de duas horas, o que impediu a continuidade das atividades de ensino nesse período. Uma semana depois, Potter voltou a acessar os sistemas e excluiu mais nove contas Gmail do distrito. Entre elas estavam contas de funcionários atuais e antigos, do diretor de TI e do superintendente. A investigação mostrou que, em uma das invasões realizadas em janeiro, Potter chegou a usar uma VPN. Mesmo assim, o endereço IP foi posteriormente associado a ele e ao seu então empregador, The Printer Inc, empresa na qual passou a trabalhar depois de deixar a Casey’s. Potter saiu desse emprego em 23 de janeiro de 2025, por motivos não divulgados. A descoberta decisiva ocorreu após Potter deixar um pen drive em sua antiga mesa de trabalho. Ele pediu a um colega que “limpasse” o dispositivo após sua saída da empresa, mas o colega comunicou o caso à administração. A The Printer Inc entregou o pen drive às autoridades, e o dispositivo foi posteriormente analisado pelo FBI. A perícia encontrou planilhas contendo mais de 300 nomes de usuário e senhas do distrito escolar, uma planta da Saydel High School, dados pessoais de Potter e contracheques referentes ao período em que trabalhou no Saydel Community School District. Ao todo, o distrito informou ter arcado com US$ 73.375 em custos relacionados a tempo perdido por funcionários, perícia digital, interrupção de atividades de aprendizagem e trabalho com fornecedores para remediar as invasões. A seguradora do distrito gastou mais US$ 27.893,75 com perícia digital e ações de remediação. Com isso, as perdas totais chegaram a US$ 101.268,81. Potter foi indiciado em 15 de outubro de 2025 e preso no dia seguinte. Posteriormente, foi liberado sob supervisão pré-julgamento após aceitar responsabilidade pelos crimes. Ele se declarou culpado em janeiro de 2026 e foi formalmente considerado culpado em fevereiro. Durante a audiência de sentença, Potter afirmou sentir profundo arrependimento por suas ações, especialmente por ter prejudicado o aprendizado de crianças e por ter falhado com sua família. Segundo a imprensa local, ele declarou que nunca teve a intenção de afetar negativamente os estudantes, mas reconheceu que houve dano e pediu desculpas. A defesa, representada pelo advogado Joseph Herrold, argumentou contra a pena de prisão e pediu uma sentença de cinco anos de liberdade condicional. O advogado afirmou que Potter agora compreende plenamente o impacto de seus atos e lamenta profundamente os danos causados. Herrold também citou o histórico criminal quase inexistente de Potter, mencionando apenas uma contravenção anterior por assédio relacionada a um caso de 2010, quando ele tinha 18 anos. Na ocasião, Potter recebeu uma multa de US$ 65. A defesa também destacou a ordem de restituição no valor total de US$ 59.668,81, sendo US$ 31.775,06 destinados ao distrito escolar e US$ 27.893,75 à seguradora Travelers Indemnity Company. Segundo o advogado, a condenação por crime federal e o pagamento da restituição já teriam efeito dissuasório relevante e impacto duradouro sobre a vida do réu. A promotoria, representada pelo procurador David C. Waterman, defendeu uma pena de 26 meses de prisão. Para o governo, as ações de Potter não foram um erro isolado de julgamento, mas uma sequência calculada, maliciosa e aparentemente motivada por vingança. Waterman afirmou que os ataques contra os sistemas do distrito escolar são preocupantes não apenas pelo prejuízo financeiro, de dezenas de milhares de dólares, mas também pela extensão da interrupção causada às atividades de ensino e à rotina escolar. Segundo a promotoria, Potter atacou repetidamente o Saydel Community School District por ressentimento e malícia, mesmo sabendo que suas ações afetariam não apenas antigos chefes e colegas de TI, mas também professores, administradores e estudantes. O caso reforça a importância de controles rigorosos de desligamento de funcionários, especialmente em funções com privilégios administrativos. A revogação imediata de acessos, a rotação de credenciais, a auditoria de contas privilegiadas e o monitoramento de atividades suspeitas são medidas essenciais para reduzir riscos de sabotagem interna após demissões ou mudanças de função. Também evidencia o impacto operacional que um único usuário com conhecimento interno e credenciais válidas pode causar em ambientes educacionais. Além do prejuízo financeiro, incidentes desse tipo podem interromper aulas, comprometer serviços administrativos, expor dados sensíveis e exigir semanas de trabalho de recuperação.

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