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Tesco abandona VMware após disputa com a Broadcom


A Tesco, uma das maiores redes varejistas do Reino Unido, decidiu substituir a VMware por uma solução alternativa enquanto mantém uma disputa judicial contra a Broadcom, atual controladora da empresa de virtualização. O caso, que envolve licenciamento, suporte e alegações de comportamento anticompetitivo, só deve ser analisado pela High Court do Reino Unido a partir de novembro de 2027.


A origem do conflito está em um contrato firmado em janeiro de 2021, quando a Tesco adquiriu licenças perpétuas dos produtos VMware vSphere Foundation e Cloud Foundation, além de assinaturas para soluções Tanzu. O acordo também incluía serviços de suporte e atualizações de software até 2026, com opção de extensão por mais quatro anos. A Computacenter atuou como revendedora, enquanto a Dell foi usada como distribuidora dos produtos VMware.


Além das soluções de virtualização, a Tesco também utiliza softwares de mainframe da Broadcom e buscava estender licenças e suporte para esses produtos. O cenário mudou após a aquisição da VMware pela Broadcom, que deixou de vender serviços independentes para clientes que não migrassem para os pacotes de software por assinatura da companhia. Com isso, a Broadcom se recusou a estender o suporte ao ambiente VMware da Tesco nos termos esperados pela varejista.


A rede de supermercados entrou com ação judicial contra a Broadcom em meados de 2025, acusando a empresa de quebra de contrato e conduta anticompetitiva. Novos documentos apresentados ao processo no fim de maio mostram que a Tesco decidiu abandonar tanto a VMware quanto os produtos de mainframe da Broadcom, enquanto acelera uma migração considerada arriscada para soluções alternativas.


Segundo os documentos, a Tesco afirma que, diante da conduta da Broadcom e da criticidade dos softwares de virtualização e mainframe para seus negócios, foi obrigada a assumir custos materiais para contratar alternativas com funcionalidade reduzida. A varejista também alega que a migração precisa ser realizada em um prazo que cria riscos significativos para suas operações.


Entre esses custos estão pagamentos a fornecedores terceirizados de suporte para o ambiente VMware, já que a Broadcom teria interrompido o suporte ao software de virtualização em janeiro de 2026. A Tesco espera concluir a saída da VMware até o fim de 2027, mas afirma que essa é a data mais cedo possível e que o objetivo exigirá trabalho em “ritmo excepcional”.


A pressa amplia os riscos operacionais e comerciais. Em outra parte do processo, a Tesco afirma que o prazo imposto para a migração já gerou e continua gerando risco operacional, custo material recorrente e interrupções ao negócio. O impacto potencial não é abstrato: a empresa diz usar softwares de mainframe da Broadcom para fazer pedidos de produtos para suas lojas e processar sua folha de pagamento.


Também há preocupação com segurança e proteção de dados. A solução de virtualização escolhida para substituir a VMware não é compatível com as ferramentas Veeam e Zerto utilizadas pela Tesco. Na prática, isso pode afetar processos de backup, recuperação, replicação e continuidade de negócios, áreas sensíveis em uma operação varejista de grande escala.


Os documentos também mostram que a Broadcom teria apresentado pelo menos quatro propostas à Tesco. Uma delas, chamada de “proposta estratégica”, foi enviada em julho de 2024 e cobria produtos de virtualização e mainframe. Outra oferta, apresentada em 9 de janeiro de 2026, trouxe termos separados para produtos VMware e softwares de mainframe, a primeira vez em que a Broadcom ofereceu acordos distintos. A Tesco afirma, porém, que teve dificuldade para avaliar a proposta porque ela foi enviada apenas 19 dias antes do encerramento dos contratos existentes.


Outras duas propostas chegaram em abril. De acordo com a Tesco, uma delas previa cobrança de US$ 23,5 milhões, cerca de £17,4 milhões, por um ano de VMware Cloud Foundation 9.0 e serviços de software e suporte para mainframe. A varejista afirma que esse valor representaria aumento de aproximadamente 175% em relação aos preços que entende ter direito sob o contrato de 2021 para software e serviços VMware, além de alta de 350% para produtos e serviços de mainframe.


A Tesco classificou os reajustes como “manifestamente injustos e excessivos”. A Broadcom, em sua defesa alterada, rejeita essa caracterização e também contesta o argumento de que a Tesco teria direito a indenização por não conseguir encontrar um fornecedor alternativo antes do vencimento dos contratos. Como a varejista agora encontrou alternativas, a Broadcom sustenta que a empresa teria mais dificuldade para demonstrar perdas passíveis de compensação financeira.


O processo está previsto para ser ouvido pela High Court do Reino Unido em uma janela que começa em 1º de novembro de 2027 e termina em 25 de fevereiro de 2028. Isso não significa que o julgamento ocupará todo esse período, mas indica quando o tribunal estima ter disponibilidade para analisar o caso.


A Broadcom já enfrentou outras disputas relevantes relacionadas às mudanças em seu modelo de licenciamento após a aquisição da VMware. Entre os casos de maior destaque estão disputas com a AT&T e a Siemens. A AT&T chegou a um acordo confidencial, enquanto o caso da Siemens continua em andamento. Os documentos da Tesco sugerem que a varejista está disposta a sustentar judicialmente que a Broadcom se recusou a honrar acordos anteriores e que sua principal defesa, baseada na reorganização dos produtos VMware, seria frágil.


Executivos da Broadcom já afirmaram que a empresa tem forte resistência a oferecer suporte estendido para produtos antigos e prefere migrar clientes para assinaturas do VMware Cloud Foundation, principal pacote da companhia. A Broadcom defende que continuar usando softwares VMware antigos vendidos sob licenças perpétuas seria prejudicial para as próprias empresas, pois o VCF teria capacidade de melhorar operações de TI e eficiência de negócios a ponto de se pagar rapidamente.


Essa mensagem, porém, não tem convencido todos os clientes. Organizações como Western Union, GEICO e Computershare foram citadas entre as empresas que estão se afastando da VMware. Até parceiros da VMware, como a Rackspace, estariam reduzindo o uso das soluções da companhia.


O movimento também aparece fora do ambiente corporativo tradicional. O instituto técnico secundário belga Scheppers Instituut Wetteren migrou para a provedora local Whitesky.Cloud para evitar um aumento de 400% nos custos. A instituição teria feito a troca sem precisar adquirir novo hardware.


O caso da Tesco amplia a pressão sobre a estratégia da Broadcom para a VMware e expõe um desafio relevante para grandes empresas: migrar infraestruturas críticas de virtualização e mainframe não é apenas uma decisão comercial. Envolve continuidade operacional, compatibilidade com ferramentas de backup e recuperação, segurança de dados, governança de contratos e risco de interrupção em processos essenciais para o negócio.

 
 
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