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Paciente sem fala por causa da ELA volta a se comunicar com ajuda de IA



Um avanço liderado por Pesquisadores da University of California, Davis (UC Davis) mostrou que uma interface cérebro-computador (BCI, na sigla em inglês) apoiada por inteligência artificial pode devolver a comunicação oral a uma pessoa com esclerose lateral amiotrófica (ELA). O estudo, publicado nesta semana, descreve como o paciente Casey Harrell, que vive com a doença e perdeu progressivamente o controle motor e a fala, consegue hoje se comunicar, controlar um cursor no computador com o pensamento e até manter um emprego em tempo integral.


A ELA, também conhecida como doença de Lou Gehrig, compromete os neurônios motores e leva à perda de movimento, da fala e, com o avanço do quadro, à paralisia. Nesse contexto, as interfaces cérebro-computador vêm sendo estudadas há anos como uma alternativa para permitir que pacientes se comuniquem e interajam com dispositivos digitais por meio da atividade cerebral. O diferencial do trabalho conduzido pela equipe de UC Davis está no fato de transformar essa promessa em um sistema funcional, duradouro e utilizável fora do ambiente controlado de laboratório.


Segundo o artigo, Harrell recebeu os implantes em 2023 e continua utilizando o sistema até hoje. De acordo com os pesquisadores, o BCI se manteve operacional com uso diário ao longo de anos, algo apontado como um marco importante para esse tipo de tecnologia. O estudo integra os esforços do consórcio BrainGate, uma coalizão formada por universidades e pelo Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos, voltada a projetos de neurociência para restaurar fala, uso de computadores e, em alguns casos, movimento.


David Brandman, neurocirurgião da UC Davis, coautor sênior do estudo e responsável pela cirurgia de implantação, afirmou que os resultados representam a superação de um limite relevante para o setor. O pesquisador destacou não apenas a durabilidade do sistema, mas também sua precisão. Em testes controlados, a plataforma conseguiu sintetizar frases com 99% de acurácia a partir da atividade cerebral de Harrell. No uso diário, fora do laboratório, o próprio paciente avaliou a precisão em 92%.

A pesquisa também chama atenção pelo caráter prático da solução. Em trabalhos anteriores envolvendo BCI, era comum que o paciente precisasse ir até o laboratório ou dependesse da presença de pesquisadores em casa para operar o sistema. Neste caso, a equipe de cuidados de Harrell consegue conectá-lo à tecnologia sem a necessidade de suporte constante dos cientistas. Isso permitiu que ele utilizasse o dispositivo por mais de 3.800 horas desde a implantação. Considerando a linha do tempo informada no estudo — submetido à revisão por pares em julho de 2025 e publicado agora —, isso equivale a uma média superior a cinco horas de uso por dia.


O impacto dessa autonomia vai além do campo experimental. Segundo Brandman, o sistema permitiu que Harrell retomasse uma rotina mais ativa, incluindo conversas significativas com a filha, que nunca havia ouvido sua voz. O próprio paciente descreveu a experiência, por meio da interface, como uma forma de se comunicar de maneira mais natural do que qualquer outra tecnologia que já tivesse utilizado.


Do ponto de vista técnico, o grande salto não esteve no hardware em si. Brandman explicou que o estudo não utilizou um equipamento desenvolvido especificamente para esse projeto, mas sim um desenho de BCI já existente, produzido pela Blackrock Neurotech. O avanço central veio da camada de software e dos algoritmos de aprendizado de máquina desenvolvidos pela equipe da UC Davis.


O laboratório construiu uma plataforma própria chamada Brain-computer interface for Rapidly Adaptive Neural Decoding, ou BRAND. Apesar do nome coincidir com o sobrenome de Brandman, o pesquisador disse que a escolha foi coincidental. Dentro dessa plataforma, o pesquisador de pós-doutorado Nick Card desenvolveu algoritmos de machine learning que hoje já são usados em todo o consórcio BrainGate.


De acordo com o artigo, os algoritmos do BRAND conseguem traduzir a atividade do giro pré-central ventral — região do cérebro ligada ao controle motor de face, boca e mandíbula — em fonemas da língua inglesa. Em seguida, outras camadas do software fazem o mapeamento desses fonemas para palavras, e das palavras para frases completas. Essa cadeia de processamento é o que viabiliza a síntese de fala com alta precisão e torna o sistema útil para interações do dia a dia.


Na prática, isso significa que Harrell consegue se comunicar oralmente e exercer sua profissão em tempo integral como defensor de causas ambientais. O estudo, portanto, não apenas demonstra a viabilidade técnica da interface, mas apresenta um caso real de aplicação contínua em contexto doméstico e profissional.


Brandman observa que o mercado de interfaces cérebro-computador já conta com empresas como Neuralink, Synchron e Paradromics trabalhando em objetivos semelhantes. Ele próprio já esteve envolvido em estudos sobre a segurança de tecnologias comerciais da Paradromics. Ainda assim, o foco da equipe da UC Davis não é lançar imediatamente um produto comercial, mas reduzir os riscos técnicos e provar que essas soluções podem ir além de protótipos acadêmicos.


Ao comentar o estágio atual dessa tecnologia, o pesquisador comparou o momento das BCIs ao início dos marcapassos cardíacos, nos anos 1950, quando os dispositivos precisavam ficar conectados a equipamentos externos grandes e, muitas vezes, a baterias volumosas ou até diretamente à parede. Décadas depois, os marcapassos se tornaram dispositivos amplamente implantáveis e rotineiros. Para Brandman, as interfaces cérebro-computador ainda estão nesse estágio inicial, mas o caso de Harrell mostra que o caminho para aplicações práticas já começou a se consolidar.


Hoje, Harrell ainda depende de computadores externos relativamente volumosos para operar o sistema. Mesmo assim, a combinação entre o avanço em IA demonstrado pela UC Davis e o desenvolvimento de hardware promovido por outras empresas aponta para um futuro mais promissor para pessoas com paralisia e outras limitações motoras severas.


O paciente também deixou claro que espera que essa realidade deixe de ser excepcional. Segundo Harrell, ele gostaria de não ser único nesse tipo de tratamento, porque isso significaria que todos os pacientes com a mesma doença teriam acesso ao BCI por prescrição médica, e não apenas em caráter experimental.


O consórcio BrainGate segue recrutando voluntários para estudos futuros, o que indica que a pesquisa continua em andamento e que novos testes devem ajudar a ampliar o entendimento sobre segurança, confiabilidade e aplicabilidade clínica dessa tecnologia.

 
 
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