TV Boxes comprometidas simulam celulares para fraudar anĂșncios online
- Cyber Security Brazil
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Pesquisadores da Bitsight identificaram uma operação que utiliza TV Boxes Android de baixo custo para fraudar publicidade online e transformar a conexão de internet dos proprietårios em nós de uma rede de proxies. Os dispositivos alteram sua identidade para se passarem por smartphones de fabricantes como Samsung, Huawei, Xiaomi e Vivo.
A campanha foi batizada de Fuyao e Ă© atribuĂda pela Bitsight Ă empresa chinesa Zhejiang Fengwo IoT Technology Co., Ltd., fundada em 2019. A atribuição se baseia em evidĂȘncias como certificados TLS compartilhados, endereços de e-mail reutilizados, infraestrutura comum, registros de receita e patentes relacionadas. AtĂ© o momento, nĂŁo hĂĄ confirmação independente dessa atribuição.

A investigação começou apĂłs os pesquisadores registrarem um domĂnio expirado utilizado como backdoor de fĂĄbrica e coletor de telemetria dos dispositivos. A maioria dos equipamentos identificados reportava o modelo H96_MAX_V11, embora a Bitsight ressalte que a amostra analisada estava concentrada em modelos mais antigos de uma Ășnica marca e nĂŁo representa uma lista completa dos aparelhos afetados.
Em apenas um dia de monitoramento, o sinkhole criado pelos pesquisadores recebeu 65.957 comunicaçÔes provenientes de aproximadamente 38 mil endereços MAC Ășnicos contendo os aplicativos associados Ă operação. Como os dispositivos alteram seus identificadores durante o funcionamento, esse nĂșmero nĂŁo representa necessariamente a quantidade real de equipamentos comprometidos.
Segundo a anĂĄlise, os aplicativos embarcados executam duas funçÔes principais. A primeira consiste em modificar diversas caracterĂsticas do hardware para que a TV Box seja reconhecida por servidores como um smartphone Android legĂtimo.
O servidor de comando e controle envia perfis completos de telefones para cada equipamento, ocultando informaçÔes que revelariam o uso de plataformas Rockchip, Amlogic ou Allwinner, comuns em TV Boxes de baixo custo.
Disfarçados como celulares, os dispositivos recebem tarefas para visitar pĂĄginas controladas pelos prĂłprios operadores e clicar automaticamente em anĂșncios publicitĂĄrios, gerando receita fraudulenta.
Quando detectam que estĂŁo conectados a uma televisĂŁo por meio da porta HDMI, normalmente deixam de executar fraudes publicitĂĄrias e passam a atuar como servidores SOCKS5, encaminhando trĂĄfego de terceiros pela conexĂŁo residencial do proprietĂĄrio. Quando a TV Ă© desligada, retornam ao modo de fraude de anĂșncios.
Para localizar automaticamente banners e åreas clicåveis, a operação utiliza um modelo de visão computacional baseado no YOLOv8s, combinado com recursos de acessibilidade do Android e reconhecimento óptico de caracteres (OCR) do Google ML Kit.
Segundo Pedro FalĂ©, pesquisador da Bitsight, a campanha combina diferentes mecanismos de visĂŁo computacional e interpretação da interface para automatizar os cliques nos anĂșncios.
A lógica de cada campanha é criada em uma plataforma própria baseada no Blockly, framework de programação visual do Google. Os fluxos são exportados em JavaScript, armazenados na Amazon S3 e enviados remotamente para execução nos dispositivos comprometidos.

Nos testes realizados em quatro TV Boxes, os pesquisadores observaram cerca de 40 tarefas de fraude, distribuĂdas em 21 campanhas diferentes e compostas por 166 mĂłdulos distintos. Um comentĂĄrio recuperado do cĂłdigo indica que o sistema de modelos permitia que poucos engenheiros experientes desenvolvessem campanhas utilizadas por operadores menos especializados.
A Bitsight tambĂ©m mapeou a infraestrutura financeira da operação, identificando 144 domĂnios distribuĂdos em sete grupos responsĂĄveis pela monetização. Pelo menos 84 deles carregavam scripts da plataforma Taboola em suas pĂĄginas iniciais.
Com base nos dados pĂșblicos do arquivo sellers.json da Taboola, os pesquisadores associaram esses domĂnios a entidades responsĂĄveis pela arrecadação de receitas localizadas em Hong Kong e Singapura.
A empresa estima que cada dispositivo ativo possa gerar cerca de US$ 1,25 por dia, o que representaria aproximadamente US$ 47,5 mil diĂĄrios considerando uma base de 38 mil dispositivos ativos. Em outro cenĂĄrio, utilizando nĂșmeros divulgados pela prĂłpria Fengwo sobre uma frota superior a 120 mil dispositivos, a Bitsight estima um faturamento anual de atĂ© US$ 40 milhĂ”es. A empresa destaca que esses valores sĂŁo projeçÔes e nĂŁo receitas efetivamente comprovadas.
Os pesquisadores ressaltam que ainda nĂŁo foi possĂvel determinar quem instalou os aplicativos maliciosos nem em qual etapa da cadeia de fabricação ou distribuição eles passaram a fazer parte dos dispositivos.
AtĂ© o momento da divulgação do relatĂłrio, tambĂ©m nĂŁo havia uma lista completa dos pacotes afetados, versĂ”es de firmware vulnerĂĄveis ou indicadores de comprometimento especĂficos, dificultando a identificação dos equipamentos comprometidos.
Em resposta ao caso, o Google afirmou que os dispositivos analisados não eram equipamentos Android TV certificados pelo programa Play Protect. Segundo a empresa, aparelhos certificados passam por testes de segurança e compatibilidade antes de serem comercializados.
O Google recomenda que consumidores consultem a lista oficial de parceiros Android TV e verifiquem nas configuraçÔes do equipamento se ele possui certificação Play Protect.
O caso reforça um alerta emitido pelo FBI em junho de 2025, que orienta consumidores a avaliar cuidadosamente dispositivos conectados Ă rede domĂ©stica, manter o firmware atualizado e desconfiar de TV Boxes genĂ©ricas vendidas com promessas de acesso gratuito a conteĂșdo pago.

