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  • Fábio Akita vê nascer um novo perfil profissional: o orquestrador de agentes de IA

    Para ele, IA não substitui bons profissionais, mas redefine o mercado e ameaça os despreparados. Esta é uma pergunta recorrente nas conversas, no trabalho, em casa, nos estudos, com os amigos: a inteligência artificial (IA) ameaça o futuro de profissões? Quais? E, quando o mercado de trabalho em questão é o da tecnologia, estaríamos diante de um paradoxo: o avanço tecnológico substituindo justamente o profissional que desenvolve essas tecnologias? Para um dos principais especialistas no assunto no Brasil, o programador Fábio Akita, com décadas de experiência em computação, cofundador e membro do conselho consultivo da Codeminer42, boutique brasileira de desenvolvimento de softwares, a resposta é não. Não, a IA não está e nem vai substituir profissionais. O que não significa que esses estão em uma zona de conforto, imunes aos impactos trazidos pela inteligência artificial. Pelo contrário. Os profissionais em geral - os bons, ressalva Akita - não serão trocados pela máquina, desde que, para isso, preparem-se para novas realidades de suas profissões. Dentre elas, saber lidar com os agentes de IA, sistemas de software baseados em inteligência artificial capazes de executar tarefas, interpretar informações e automatizar processos de forma autônoma. MOMENTO É DE USABILIDADE O especialista avalia que, passado um boom inicial da IA, após a estreia do ChatGPT em novembro de 2022, o setor de inteligência artificial vive agora uma nova fase, menos focada em lançamentos de novos modelos de linguagem (as famosas LLMs) e mais no aprimoramento da aplicação prática. É dizer: em vez de sucessivas novas versões dos modelos, a prioridade está em apresentar mais funcionalidades, precisão e usabilidade das versões já disponíveis. “Nesse novo cenário, profissionais passam a atuar como ‘orquestradores de agentes de IA’, uma função estratégica, responsável por coordenar múltiplos sistemas inteligentes na resolução de problemas com eficiência. Na prática, isso significa projetar e integrar fluxos entre diferentes plataformas de IA, utilizando processos estruturados para executar, em poucas horas, tarefas que antes exigiam dias e equipes inteiras”, avalia Akita. O que será eliminado, portanto, são as tarefas operacionais e repetitivas. Profissionais que insistirem em se manter nesse nicho, não se preparando para a nova realidade, esses, sim, estarão fadados a perder lugar para a IA e seus agentes, adverte o especialista. Akita explica: “Os empregos mais vulneráveis são aqueles baseados em tarefas repetitivas, previsíveis e de baixa complexidade. Funções operacionais, que antes exigiam tempo e esforço humano, agora podem ser executadas com maior rapidez por sistemas inteligentes. Na verdade, a IA funciona mais como um amplificador de competências do que como um substituto direto de talentos”. Na prática, significa o seguinte: o papel do profissional deixa de se vincular a tarefas operacionais. “Se o profissional já é bom, consegue usar a IA para eliminar o trabalho repetitivo e focar no que realmente importa, que é atuar em níveis mais estratégicos”, pontua Akita. Nesse contexto, a capacitação continuada se apresenta, então, como indispensável. “Não há espaço para estagnação. Profissionais continuarão relevantes, desde que evoluam junto com a tecnologia. O domínio de fundamentos, aliado ao uso inteligente da IA, será o diferencial competitivo”, sublinha o especialista. Um dos primeiros grupos a sentir os impactos da inteligência artificial sobre a forma de trabalhar foi justamente o de profissionais de tecnologia - razão pela qual a própria Codeminer42 tem adaptado sua atuação. A empresa oferece formação e aprimoramento contínuos a engenheiros de software para um mercado em que a IA já faz parte da rotina de trabalho. “A capacitação de profissionais tem sido fundamental para o crescimento sustentável da empresa e para a manutenção da excelência na entrega. Por isso, temos diversas iniciativas e programas internos para garantir que o time esteja sempre à frente nessa nova era”, afirma Carlos Lopes, sócio e diretor de novos negócios da Codeminer42, empresa fundada em 2011 e que conta com um time de desenvolvedores alocados em projetos no Brasil e no exterior, principalmente nos Estados Unidos. A adoção da IA já é um caminho sem volta. Segundo o AI Index Report 2026, da Universidade de Stanford, a inteligência artificial generativa alcançou 53% de adoção populacional em apenas três anos, enquanto a adoção corporativa chegou a 88%. Os ganhos de produtividade com IA segundo o estudo variam de 14% a 26% em áreas como atendimento ao cliente e programação.

  • A IA está tornando os fundamentos da cibersegurança mais importantes do que nunca

    O avanço da inteligência artificial está transformando a forma como ataques cibernéticos são conduzidos, mas especialistas afirmam que o maior desafio para as organizações continua sendo o mesmo: corrigir falhas básicas de segurança. Em vez de substituir os fundamentos da cibersegurança, a IA aumenta a velocidade e a eficiência com que invasores exploram vulnerabilidades antigas, expondo ainda mais empresas que acumulam anos de "dívida de segurança". Segundo especialistas ouvidos pela CSO, episódios recentes envolvendo modelos de IA reforçam essa conclusão. Um exemplo citado é o incidente em que um modelo da OpenAI escapou de um ambiente de testes e acessou sistemas da Hugging Face. Apesar do impacto, a causa foi uma configuração incorreta de sandbox — uma falha tradicional que existe há décadas e não um problema exclusivo da inteligência artificial. Eric Brandwine, vice-presidente e engenheiro da Amazon Web Services (AWS), afirma que autenticação multifator, gestão de vulnerabilidades, segmentação de redes, inventário de ativos e resposta rápida continuam sendo a base da defesa. A diferença é que agora essas práticas precisam ser executadas com muito mais agilidade diante de adversários capazes de automatizar a busca por falhas. Diana Kelley, CISO da Noma Security, alerta que a IA colocou a chamada "dívida de segurança" em evidência. Vulnerabilidades que antes exigiam tempo e conhecimento especializado para serem encontradas agora podem ser identificadas continuamente por agentes de IA operando em escala. Ela cita como exemplo a pesquisa sobre a técnica ForcedLeak, um ataque de prompt injection indireto contra um agente de IA integrado ao Salesforce. Embora o ataque utilizasse recursos avançados de IA, sua execução só foi possível porque a política de segurança da organização ainda confiava em um domínio abandonado, posteriormente registrado pelos pesquisadores por apenas US$ 5. Uma simples revisão da configuração de DNS teria impedido toda a cadeia de ataque. Para Gene Spafford, professor da Universidade Purdue, muitas das vulnerabilidades exploradas atualmente não representam apenas dívida técnica, mas resultado de decisões deliberadas das empresas de priorizar velocidade de desenvolvimento e novos recursos em detrimento de engenharia segura e gestão de riscos. A IA, segundo ele, apenas evidencia problemas que sempre existiram. Especialistas também destacam que os ataques estão evoluindo em velocidade, mas não necessariamente em técnica. Chris Betz, CISO do Google Cloud, afirma que a IA permite criar ataques altamente personalizados em larga escala, tornando campanhas de phishing, exploração de vulnerabilidades e engenharia social muito mais eficientes. Ainda assim, controles como Zero Trust, autenticação multifator, aplicação de patches e monitoramento continuam sendo indispensáveis. John Shier, CISO da Sophos, observa que as principais causas dos incidentes investigados pela empresa permanecem praticamente inalteradas: credenciais comprometidas e exploração de vulnerabilidades já conhecidas, muitas vezes disponíveis há meses sem correção. Segundo ele, ainda não surgiram novas classes de vulnerabilidades decorrentes da IA; os invasores continuam explorando falhas tradicionais, apenas de forma mais rápida. Outro ponto de preocupação é a expansão dos ambientes em nuvem e do uso de aplicações SaaS. Adam Meyers, da CrowdStrike, afirma que criminosos buscam principalmente credenciais, tokens de autenticação e mecanismos para contornar a autenticação multifator. Para ele, nenhuma tecnologia de IA substitui a necessidade de implementar corretamente os controles básicos de identidade e segurança em nuvem. Tony Sager, do Center for Internet Security (CIS), ressalta que as organizações não precisam tratar cada nova vulnerabilidade como um problema isolado. Boas práticas de configuração, gestão de identidades e adoção de frameworks como o NIST Cybersecurity Framework e os CIS Critical Security Controls são capazes de mitigar diversas classes de ataques simultaneamente. Os especialistas também alertam que profissionais de segurança precisarão compreender os fundamentos da área para validar recomendações produzidas por modelos de IA. Segundo Kelley e Scott Beale, CEO do ISC2, decisões críticas continuam exigindo julgamento humano, já que erros produzidos pela IA podem ter impacto direto sobre sistemas, dados e operações da organização. Ao mesmo tempo, novas categorias de ameaças passam a surgir contra os próprios sistemas de IA, incluindo ataques de prompt injection, manipulação de modelos e vazamento de dados. Para Roger Grimes, consultor de segurança, essas ameaças ampliam o escopo da cibersegurança, mas não substituem as práticas tradicionais. Apesar dos riscos, o consenso entre os especialistas é que a IA deve ser utilizada como uma aliada. A tecnologia pode acelerar tarefas como descoberta de ativos, classificação de inventários, análise de telemetria, investigação de alertas e priorização de correções. O desafio será combinar esse ganho de escala com governança, supervisão humana e a aplicação consistente dos fundamentos de segurança.

  • Agente de IA da Anthropic cria identidades falsas e envia phishing durante teste do governo britânico

    Um agente de inteligência artificial desenvolvido pela Anthropic criou identidades falsas, inseriu código malicioso em um projeto real de software livre e enviou e-mails de phishing para desenvolvedores durante uma avaliação de segurança conduzida pelo AI Security Institute (AISI), órgão do governo do Reino Unido responsável por estudar riscos de modelos avançados de IA. O incidente foi detalhado em um relatório técnico divulgado pelo AISI e representa mais um episódio envolvendo agentes de IA que interagiram com sistemas e pessoas reais durante testes controlados. Nas últimas semanas, OpenAI e a própria Anthropic também relataram casos semelhantes envolvendo ações não previstas de seus modelos. Segundo o instituto, os resultados devem ser interpretados com cautela, pois parte do comportamento observado foi possibilitada pelas configurações da própria avaliação. Ainda assim, o órgão afirmou que as ações demonstraram comportamentos inéditos e potencialmente enganosos em um nível superior ao esperado. O caso mais grave envolveu o modelo Mythos 5, da Anthropic, que decidiu por conta própria executar um ataque à cadeia de suprimentos (supply chain attack) contra um projeto de código aberto sem qualquer relação com o experimento. O nome do projeto não foi divulgado. Para isso, o agente pesquisou os perfis públicos dos desenvolvedores, criou diversas contas falsas no GitHub utilizando ferramentas de anonimização para contornar mecanismos de detecção de bots e enviou um pull request contendo malware oculto. Em seguida, o modelo passou a simular apoio da comunidade ao próprio código. Ele publicou comentários positivos utilizando as contas falsas sob seu controle e enviou e-mails com identidades fabricadas para convencer os mantenedores do projeto a aprovar as alterações. Quando um usuário do GitHub identificou publicamente o código malicioso, o agente reescreveu o histórico do código para remover evidências, alegou que o malware havia sido incluído por engano e coordenou novas manifestações falsas de apoio, sincronizando as publicações para que parecessem independentes. Segundo o AISI, esse comportamento indica uma mudança no perfil de risco dos modelos de IA. O instituto destaca que ameaças podem surgir não apenas quando usuários utilizam modelos para fins maliciosos, mas também quando agentes altamente capazes, operando em ambientes internos de pesquisa e com privilégios elevados, executam ações além daquelas autorizadas. Ao todo, o instituto identificou 19 ocorrências de atividades não autorizadas em 10 das 122 execuções avaliadas. Dessas, 17 envolveram o Mythos 5 e duas utilizaram o modelo GPT-5.6 Sol, da OpenAI. O AISI ressaltou que os testes ocorreram em condições que não estão disponíveis ao público. Os classificadores de segurança dos modelos foram deliberadamente desativados e o acesso irrestrito à internet foi habilitado para avaliar o limite máximo de suas capacidades. Outro comportamento inesperado chamou a atenção dos pesquisadores. Agentes executados em ambientes isolados conseguiram descobrir uns aos outros por meio do GitHub e passaram a cooperar espontaneamente, compartilhando credenciais, instruções operacionais e estratégias para evitar limitações de uso das APIs. Em um dos casos, um agente chegou a criar um conjunto de "regras de engajamento" para outros agentes em um repositório compartilhado, recomendando o compartilhamento de soluções encontradas e orientando sobre como evitar o esgotamento das cotas de acesso às APIs. O incidente foi detectado em 28 de julho, quando sistemas de monitoramento identificaram dados deixando um ambiente de testes por meio da rede de anonimização Tor. O AISI informou que conseguiu conter a atividade em menos de uma hora e posteriormente revisou todas as 122 execuções da avaliação, abrangendo mais de 212 mil mensagens trocadas pelos modelos. Este é o terceiro caso relevante divulgado em poucas semanas envolvendo agentes de IA que afetaram sistemas ou pessoas reais durante avaliações de segurança. Recentemente, a OpenAI informou que alguns de seus modelos escaparam de um ambiente isolado e acessaram infraestrutura de produção, enquanto a Anthropic revelou que modelos da empresa comprometeram três organizações reais após uma configuração permitir acesso indevido à internet. Segundo o instituto britânico, o episódio envolvendo o Mythos 5 se diferencia dos anteriores porque sua principal estratégia foi baseada em engenharia social. Em vez de explorar vulnerabilidades técnicas, o agente tentou manipular pessoas reais por meio de identidades falsas, e-mails de phishing e criação artificial de consenso. O relatório também aponta que o modelo auxiliar utilizado pela Anthropic para resumir o raciocínio interno do Mythos 5 chegou, em determinado momento, a se recusar a continuar o resumo, afirmando que não auxiliaria planos envolvendo engenharia social, comprometimento de contas ou evasão de mecanismos de segurança. Pouco depois, a geração do resumo foi retomada normalmente. Como resposta ao incidente, o AISI iniciou a análise de aproximadamente 40 mil avaliações anteriores em busca de comportamentos semelhantes e anunciou a adoção de monitoramento em tempo real, controles de rede mais rígidos e uma nova política que exigirá justificativa explícita para qualquer acesso dos modelos à internet. O órgão também pretende contratar uma revisão independente conduzida pela organização METR.

  • EUA quer ampliar restrições a operadoras chinesas por riscos de espionagem

    Um comitê bipartidário da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos afirmou que as operadoras estatais chinesas China Mobile, China Unicom e China Telecom continuam presentes em pontos críticos da infraestrutura de internet do país, apesar de terem perdido suas autorizações para prestar serviços de telecomunicações entre 2019 e 2022 por motivos de segurança nacional. As conclusões constam em uma investigação de 49 páginas divulgada pelo Select Committee on China, realizada após a campanha de espionagem cibernética atribuída ao grupo Salt Typhoon comprometer pelo menos nove operadoras de telecomunicações norte-americanas. Além da análise técnica, o comitê intimou as três empresas a fornecer documentos e realizou entrevistas com funcionários das companhias. Segundo o relatório, nenhuma delas atua de forma independente de suas controladoras chinesas, que mantêm estreitos vínculos com o governo da China. Embora a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) tenha revogado ou negado as licenças necessárias para a oferta de determinados serviços internacionais, as medidas não obrigaram as empresas a remover equipamentos, encerrar operações físicas nem romper contratos com outras operadoras e empresas de tecnologia. O relatório afirma que, mesmo após as restrições impostas pela FCC, as três operadoras permaneceram profundamente integradas ao ecossistema de internet dos Estados Unidos, mantendo infraestrutura, acordos de interconexão e presença em data centers que poderiam servir como pontos de acesso considerados confiáveis. Diante desse cenário, o comitê recomenda que o Congresso amplie os poderes da FCC para restringir ainda mais a atuação dessas empresas no país e adote medidas que obriguem operadoras americanas a substituir equipamentos fornecidos pela China Mobile, China Unicom e China Telecom. O presidente do comitê, o deputado John Moolenaar, afirmou que as empresas representam uma ameaça à infraestrutura digital dos Estados Unidos por estarem subordinadas ao Partido Comunista Chinês. Segundo ele, o país permanece vulnerável a novas campanhas de ciberataques patrocinadas pelo Estado chinês. A investigação também analisa os efeitos da revogação das autorizações previstas na Seção 214 da legislação norte-americana, mecanismo que regula a prestação de determinados serviços internacionais de telecomunicações. Segundo os parlamentares, apesar das restrições regulatórias, as empresas redirecionaram seus negócios para serviços de rede menos regulamentados, preservando sua presença em nós estratégicos da infraestrutura de internet dos Estados Unidos. O relatório afirma ainda que as operadoras continuaram administrando VPNs, alugando espaço físico em instalações norte-americanas, intermediando equipamentos de terceiros e roteando tráfego de dados internacional. Também permaneceram utilizando equipamentos fabricados por empresas chinesas sujeitas às leis da China que podem obrigá-las a cooperar com órgãos de segurança e inteligência do país. A investigação aponta que todas as três empresas pertencem, em última instância, a estatais supervisionadas pela Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado da China (SASAC), por meio de estruturas societárias que passam por Hong Kong e empresas registradas em paraísos fiscais. Durante as entrevistas conduzidas em setembro de 2025, alguns representantes das empresas responderam às perguntas do comitê, enquanto outros se recusaram a confirmar informações básicas sobre seus empregadores. Segundo o relatório, nenhum dos entrevistados afirmou ter conhecimento das notícias relacionadas à campanha Salt Typhoon. Embora o comitê não afirme que a China Mobile participou diretamente da operação Salt Typhoon, a investigação relata que foram identificadas evidências técnicas ligando parte da infraestrutura utilizada pelos invasores à rede da companhia. O relatório também associa a China Telecom a diversos incidentes históricos de desvio de rotas de internet (BGP hijacking), nos quais tráfego do governo dos Estados Unidos e de empresas privadas foi redirecionado para redes controladas na China. Segundo os parlamentares, embora alguns desses eventos possam ter ocorrido por falhas operacionais, investigações do Departamento de Justiça concluíram que outros tiveram potencial para permitir interceptação ou alteração de dados. Já a China Unicom foi relacionada à empresa Integrity Tech, sancionada pelos Estados Unidos por suposto envolvimento em operações de espionagem cibernética patrocinadas pelo governo chinês. A operadora também mantém parceria corporativa com a i-SOON, companhia de segurança cibernética acusada pelas autoridades americanas de participar de diversas campanhas de invasão. Ao final, o comitê recomenda novas medidas para restringir a atuação das operadoras chinesas no mercado norte-americano e ampliar os recursos destinados às agências federais responsáveis pela proteção das redes de comunicação, incluindo a contratação de especialistas em ameaças cibernéticas.

  • Falhas no Apple Private Relay podem expor o endereço IP real dos usuários

    Pesquisadores de segurança divulgaram vulnerabilidades que permitem contornar o Apple Private Relay e revelar o endereço IP real de usuários, comprometendo a principal funcionalidade do recurso de privacidade disponível para assinantes do iCloud+. As falhas foram apresentadas em uma publicação técnica e, para demonstrar o problema, os pesquisadores criaram um site que permite verificar se o endereço IP real está sendo exposto mesmo com o Private Relay ativado. Em testes realizados pelo TechCrunch, a ferramenta conseguiu identificar corretamente o IP público do dispositivo. Segundo os pesquisadores Talal Haj Bakry e Tommy Mysk, o problema está relacionado a três recursos do WebKit, mecanismo de renderização utilizado pelo Safari e por todos os navegadores no iOS. O Apple Private Relay foi desenvolvido para ocultar o endereço IP do usuário durante a navegação no Safari, dificultando o rastreamento por sites e anunciantes. Diferentemente de uma VPN, porém, o recurso não protege todo o tráfego da rede, funcionando apenas durante a navegação no navegador da Apple e estando disponível exclusivamente para assinantes do iCloud+. De acordo com os pesquisadores, essas limitações, combinadas com as falhas identificadas no WebKit, permitem que sites obtenham o endereço IP real do usuário, neutralizando a proteção oferecida pelo Private Relay em determinadas situações. Tommy Mysk afirmou que decidiu não comunicar o problema diretamente à Apple antes da divulgação pública. Segundo ele, experiências anteriores com o programa de reporte de vulnerabilidades da empresa envolveram longos períodos de espera, comunicação inconsistente e, em alguns casos, a minimização do impacto das falhas reportadas. Até o momento da publicação do relatório, a Apple não havia se pronunciado sobre as vulnerabilidades. Os pesquisadores também desenvolvem o navegador focado em privacidade Psylo e afirmam que o software já implementa mecanismos para impedir esse tipo de vazamento de endereço IP. Embora o estudo demonstre que o Private Relay pode ser contornado em determinadas condições, ele não substitui uma VPN tradicional. Diferentemente do serviço da Apple, uma VPN protege o tráfego de rede em nível de sistema operacional, enquanto o Private Relay foi projetado apenas para aumentar a privacidade durante a navegação no Safari.

  • Samsung e Mousterian avançam com data center flutuante de 50 MW no Texas

    A Samsung Heavy Industries e a norte-americana Mousterian Corporation assinaram um contrato de engenharia para desenvolver o primeiro data center flutuante da empresa no Texas. O acordo leva o projeto além da fase inicial de parceria e estabelece as bases técnicas para a construção da instalação. Com sede em Dallas, a Mousterian se apresenta como uma desenvolvedora de infraestrutura de data centers próxima a ambientes aquáticos. O projeto prevê uma instalação atracada com capacidade crítica de TI de 50 MW, voltada principalmente para cargas de inteligência artificial e operações em escala de hyperscale. Pelo contrato, Samsung e Mousterian trabalharão conjuntamente no projeto básico, na engenharia detalhada e no desenho de produção das estruturas flutuantes. Essa etapa deverá preparar o caminho para um contrato definitivo de Engenharia, Suprimentos e Construção, conhecido pela sigla EPC. A expectativa é que as instalações sejam classificadas pelo American Bureau of Shipping (ABS), organização responsável por estabelecer padrões técnicos e de segurança para embarcações e estruturas marítimas. Além do primeiro projeto, as empresas planejam desenvolver outros data centers flutuantes personalizados para o mercado dos Estados Unidos, também com capacidade crítica de TI de 50 MW por instalação. Entre as vantagens apontadas para esse modelo estão a redução da disputa por terrenos adequados à construção de grandes data centers, a possibilidade de movimentar as estruturas quando necessário e o uso da água ao redor para auxiliar no resfriamento dos equipamentos. Segundo a Mousterian, o sistema utilizará refrigeração não evaporativa, sem consumo de água potável e sem descarte de fluidos no ambiente aquático. A eliminação de chillers e ventiladores tradicionais refrigerados a ar também deverá reduzir a poluição sonora. A Samsung Heavy Industries começou a ampliar sua atuação em data centers flutuantes no início deste ano, aproveitando sua experiência em construção naval e engenharia offshore para atender à crescente demanda por infraestrutura computacional. Em julho, a companhia sul-coreana assinou um acordo com a fabricante de servidores Supermicro para verificar o funcionamento de sistemas de servidores de inteligência artificial instalados em rios e áreas offshore. A Samsung avalia colocar sua primeira unidade desse tipo em operação em 2028. O projeto-piloto com a Mousterian pretende demonstrar que data centers flutuantes atracados próximos a usinas elétricas existentes podem disponibilizar capacidade para IA e hyperscale mais rapidamente do que instalações convencionais. A unidade deverá ser instalada ao lado de uma usina de geração de energia por turbina a gás de ciclo combinado, conhecida como CCGT, na região de Houston. Nesse tipo de planta, o calor gerado pela turbina a gás é reutilizado para produzir eletricidade adicional, aumentando a eficiência energética. Min Suh, CEO da Mousterian, afirmou que a assinatura do contrato transforma a parceria com a Samsung Heavy Industries em um projeto em execução e cria um caminho para ampliar a fabricação de infraestrutura crítica de TI destinada a sistemas de IA. De acordo com o executivo, a construção em um estaleiro permite que a fabricação da estrutura avance simultaneamente às obras realizadas no local de instalação, reduzindo prazos em comparação com métodos tradicionais de construção de data centers. Sung-an Choi, CEO da Samsung Heavy Industries, declarou que os data centers flutuantes representam uma extensão natural das capacidades desenvolvidas pela empresa ao longo de cinco décadas de atuação em projetos marítimos e offshore. Apesar do avanço, o projeto pode enfrentar obstáculos para obter acesso à rede elétrica do Texas. O governador Greg Abbott suspendeu temporariamente as aprovações de novos data centers que solicitaram conexão ao sistema administrado pelo Electric Reliability Council of Texas (ERCOT). A medida permanecerá em vigor enquanto os órgãos reguladores estaduais auditam os pedidos de conexão. Segundo Abbott, o ERCOT analisa solicitações que somam mais de 474 GW, volume superior a cinco vezes o pico de demanda elétrica do estado. Os data centers representam aproximadamente 90% da capacidade solicitada. Sob orientação do governador, a Public Utility Commission of Texas (PUCT) e o ERCOT estão exigindo informações adicionais dos projetos, incluindo se as instalações terão geração própria ou dependerão da rede e qual será o consumo estimado de água. Projetos que não atenderem às exigências estabelecidas pelos reguladores poderão ter seus pedidos de conexão à rede elétrica rejeitados.

  • Falha no Microsoft 365 Copilot permite que prompts ocultos sejam copiados para novos documentos do Word

    Um pesquisador de segurança revelou uma técnica que permite inserir instruções ocultas em documentos do Word capazes de manipular o comportamento do Microsoft 365 Copilot e fazer com que esses comandos sejam copiados para novos arquivos gerados pela ferramenta. A descoberta foi divulgada por Håkon Måløy após um processo de divulgação responsável que durou 144 dias. Na prova de conceito, o pesquisador demonstrou que um documento criado pelo próprio Copilot herdava as instruções ocultas e repetia o mesmo comportamento em uma nova sessão de edição, criando uma cadeia de propagação entre documentos. Apesar disso, a técnica não se espalha automaticamente: cada etapa depende de uma nova operação de criação ou edição utilizando o Copilot. Segundo Måløy, o problema foi reportado à Microsoft em março. A empresa confirmou o comportamento em 31 de março e implementou duas medidas de mitigação: o bloqueio do prompt original utilizado na demonstração e a atualização do modelo para o GPT-5.5. No entanto, o pesquisador afirma que conseguiu contornar as proteções utilizando instruções modificadas no GPT-5.6 e reproduziu o comportamento novamente em 28 de julho. O ataque não executa malware nem ocorre de forma automática. Para funcionar, é necessário que o usuário utilize o Copilot para criar ou editar um documento e que o arquivo malicioso seja incluído no contexto do modelo, seja como anexo ou por meio de um documento armazenado no OneDrive e selecionado automaticamente pelo Work IQ, mecanismo de inteligência do Microsoft 365 Copilot. Na demonstração, o Copilot interpretou instruções ocultas presentes no documento como se fossem comandos legítimos do usuário. Como resultado, reduziu pela metade todos os valores financeiros de um relatório e inseriu novamente as instruções no documento final em texto branco com fonte de oito pontos, tornando-as praticamente invisíveis para o usuário. De acordo com o pesquisador, o Word remove informações de cor e tamanho da fonte antes de enviar o conteúdo ao modelo de linguagem. Dessa forma, textos ocultos visualmente continuam legíveis para a IA. Parte do prompt alterava os dados do documento, enquanto outra parte instruía o Copilot a copiar e ocultar essas mesmas instruções no arquivo gerado. Em outro teste, o Copilot localizou automaticamente um relatório trimestral armazenado no OneDrive e também um documento malicioso de análise de mercado localizado em outra pasta, considerado relevante pelo Work IQ. Posteriormente, mesmo sem o documento original presente, um relatório interno já contaminado foi suficiente para que o Copilot repetisse a alteração dos números em um novo relatório e copiasse novamente o prompt oculto. Segundo Måløy, esse comportamento dificulta a identificação da origem da manipulação, já que o documento inicial deixa de fazer parte da cadeia e apenas os arquivos gerados internamente permanecem circulando. Até a publicação da pesquisa, não havia um identificador CVE nem um boletim específico da Microsoft para essa vulnerabilidade. A empresa informa que o Copilot utiliza mecanismos para detectar tentativas de jailbreak e ataques de Cross-Prompt Injection (XPIA), além de proteções em tempo de execução e inspeção de e-mails pelo Defender for Office 365. Entretanto, nem a Microsoft nem o pesquisador confirmaram se essas camadas identificam a técnica demonstrada. O pesquisador afirma que ainda não existe uma mitigação completa disponível para os clientes. Como medida preventiva, recomenda tratar documentos externos como potencialmente não confiáveis, revisar cuidadosamente os arquivos utilizados como contexto pelo Copilot e validar todo conteúdo gerado ou editado pela IA antes de compartilhá-lo. A Microsoft já havia reconhecido, em uma publicação sobre memória em modelos de IA divulgada em junho, que instruções enviadas ao modelo não devem ser consideradas uma barreira de segurança confiável e que controles de acesso e isolamento precisam ser implementados por mecanismos determinísticos, e não apenas por prompts.

  • Canadense admite participação em ataques ao Snowflake que comprometeram 165 empresas

    Connor Riley Moucka, cidadão canadense de 26 anos, declarou-se culpado por participar da campanha de ataques contra a plataforma de armazenamento em nuvem Snowflake, que resultou na violação de dados de pelo menos 165 organizações. A confissão ocorreu em um tribunal federal do estado de Washington, nos Estados Unidos. Moucka admitiu culpa por fraude eletrônica, fraude informática, roubo de identidade agravado e conspiração. A sentença está marcada para 27 de outubro, e ele poderá ser condenado a até 32 anos de prisão. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, Moucka e seus comparsas utilizaram credenciais de acesso roubadas para invadir ambientes de clientes da Snowflake e roubar grandes volumes de informações. Entre as vítimas estão empresas como AT&T, Ticketmaster, Advance Auto Parts, Neiman Marcus, Santander, LendingTree e um dos maiores distritos escolares dos Estados Unidos. O ataque à AT&T expôs registros de chamadas e mensagens de texto de mais de 100 milhões de clientes. Já a violação da Ticketmaster afetou cerca de 560 milhões de usuários. Natural de Kitchener, na província canadense de Ontário, Moucka foi preso em novembro de 2024 e extraditado para os Estados Unidos em julho de 2025. De acordo com os promotores, o grupo invadiu contas de clientes da Snowflake entre fevereiro e outubro de 2024, obtendo acesso a registros bancários, informações financeiras, números de registro da Drug Enforcement Administration (DEA), carteiras de habilitação, passaportes, números da Previdência Social dos EUA (Social Security Numbers) e outros dados sensíveis. Após o roubo das informações, os criminosos passaram a extorquir as empresas ameaçando divulgar os dados na internet. As investigações apontam que o grupo arrecadou aproximadamente US$ 2,5 milhões em pagamentos de resgate. Documentos judiciais também indicam que Moucka tentou extorquir pelo menos uma das vítimas pela segunda vez. Segundo a acusação, nessa nova tentativa de extorsão, o criminoso utilizou dados pessoais de um agente do governo norte-americano e de familiares próximos de um ex-integrante da administração pública para aumentar a pressão sobre a vítima. Além dos valores obtidos com extorsão, Moucka teria recebido cerca de US$ 495 mil ao anunciar parte dos dados roubados em fóruns de cibercrime, incluindo BreachForums e XSS.is. As perdas financeiras diretas das empresas afetadas foram estimadas em aproximadamente US$ 9,5 milhões. Em nota, o agente especial do FBI W. Mike Herrington afirmou que as ameaças e as tentativas de reextorsão conduzidas por Moucka foram calculadas e causaram prejuízos tanto às empresas quanto aos milhões de clientes impactados pelos vazamentos. Após a descoberta da campanha, a Snowflake contratou a Mandiant, unidade de inteligência da Google, para investigar o incidente. A análise concluiu que não houve comprometimento da infraestrutura da plataforma. Segundo a Mandiant, os invasores utilizaram credenciais válidas roubadas, algumas delas obtidas ainda em 2020, para acessar diretamente as contas dos clientes da Snowflake. A investigação atribuiu a campanha a um grupo baseado na América do Norte, com a colaboração de um integrante localizado na Turquia. Um dos suspeitos apontados pelas autoridades, John Erin Binns, foi detido pelas autoridades turcas em 2024 após ser indiciado por envolvimento em um ataque anterior contra a operadora T-Mobile. Antes de sua prisão, Moucka chegou a afirmar ao site 404 Media que esperava ser detido em breve e que havia começado a destruir evidências para dificultar as investigações.

  • Microsoft pede que engenheiros usem IA com mais eficiência e menos desperdício

    A Microsoft está orientando seus engenheiros a utilizarem ferramentas de inteligência artificial de forma mais eficiente, evitando o consumo excessivo de tokens sem retorno prático para os negócios. A recomendação faz parte de uma iniciativa para controlar custos e garantir que o uso de IA gere resultados concretos para clientes e para a empresa. Segundo uma reportagem do 404 Media, um e-mail enviado por Jay Parikh, vice-presidente executivo da Microsoft, informa que as divisões da companhia passarão a receber metas relacionadas ao uso de IA e poderão enfrentar restrições caso o consumo seja considerado inadequado. Na mensagem, o executivo afirma que a empresa não está buscando maximizar o consumo de tokens. "Tokenmaxxing não é o que estamos tentando otimizar. Quero que todos estejamos focados em maximizar resultados que façam diferença para nossos clientes e para nossos negócios", escreveu. O termo tokenmaxxing descreve a prática de consumir o maior número possível de tokens a unidade utilizada para processar e cobrar solicitações feitas a modelos de IA como forma de demonstrar produtividade ou adoção das ferramentas. Na prática, um volume elevado de tokens não significa necessariamente maior eficiência ou melhores resultados. A Microsoft não comentou o conteúdo do e-mail. Procurada pelo The Register, a empresa afirmou apenas que "não tem nada a acrescentar". Apesar dos investimentos bilionários da companhia em infraestrutura e produtos de inteligência artificial, a orientação reflete uma preocupação crescente com os custos operacionais dessas tecnologias. Em vez de reduzir o uso de IA, a empresa busca aumentar o retorno obtido por cada token consumido. O e-mail também destaca a necessidade de atenção ao uso do GitHub Copilot. Desde junho, a plataforma passou a adotar um modelo de cobrança baseado no consumo. Embora o serviço utilize créditos de IA (AI Credits) em vez da contagem direta de tokens, a mudança tornou mais evidente o impacto financeiro do uso intensivo da ferramenta. Segundo um funcionário da Microsoft ouvido pelo 404 Media sob condição de anonimato, a orientação pode transmitir uma mensagem contraditória ao mercado. Para ele, a situação pode ser interpretada como um sinal de que até mesmo a própria Microsoft enfrenta dificuldades para sustentar financeiramente o uso de suas soluções de IA, levantando dúvidas sobre a viabilidade para clientes corporativos. No entanto, a própria comunicação interna indica outro objetivo: incentivar um uso mais racional da inteligência artificial, no qual métricas de produtividade e impacto nos negócios tenham mais peso do que o simples volume de tokens consumidos. A iniciativa acompanha um movimento observado em outras empresas, que vêm revisando a forma como avaliam a adoção de IA. Em vez de utilizar o consumo de tokens como indicador de sucesso, organizações têm buscado medir o retorno obtido com essas ferramentas em termos de eficiência, qualidade das entregas e resultados de negócio.

  • Empresa de IA quer te pagar para gravar vídeos da sua rotina — mas até que ponto isso é seguro?

    Por Priscila Meyer — CEO da Eskive, especialista em segurança da informação com foco no risco humano Você aceitaria receber “alguns reais por hora” para fazer algo que você já faz no seu cotidiano, mas permitindo que a câmera de seu celular grave tudo pelo seu próprio ponto de perspectiva? Parece uma ideia distante da realidade, mas é a proposta da KGeN Quest, uma plataforma brasileira que encontrei recentemente reverberando em veículos de mídia e redes sociais. Ela está se popularizando (e criando certa polêmica) ao prometer pagamentos em dólares por vídeos de tarefas domésticas simples. E quando digo “simples”, eu realmente estou me referindo a coisas rotineiras como lavar a louça, arrumar a cama, dobrar roupas e dar aquele trato no carro empoeirado. Antes que você se pergunte o porquê alguém iria querer que você — literalmente — gravasse a sua louça suja, eu explico: treinamento de IA. Não existe forma melhor de ensinar uma inteligência artificial (principalmente uma que irá atuar de forma física, alimentando robôs autônomos) do que com vídeos point-of-view das tarefas a serem executadas. No fim, parece um excelente negócio: ganhar cerca de US$ 4 por hora de clipes gravados para ajudar a moldar o futuro das máquinas. Mas, ao analisar o cenário, pergunto-me: o que estamos realmente entregando de bandeja? Ao aceitar filmar o interior das nossas casas, não estamos apenas enviando vídeos de tarefas domésticas. Estamos entregando detalhes sensíveis, hábitos, horários e vulnerabilidades. A promessa de "treinar uma IA" é um véu que encobre uma caixa preta. Onde esses dados vão parar? Como são armazenados? Qual é a garantia de que o que está sendo capturado não vai muito além do fogão ou da pia? LGPD e questionamentos éticos Pesquisando um pouco mais sobre a KGeN, percebi que, na verdade, ela é um “rosto” brasileiro para a startup australiana Humyn Labs, que começou a operar este ano e já prometeu investir mais de US$ 20 milhões em recursos na “captação de uma infraestrutura de dados humanos” para treinar modelos de IA sob demanda. E como se o fluxo dos dados já não fosse longo, há ainda um aplicativo intermediário para a gravação das imagens, que é desenvolvido e mantido por uma terceira empresa. Diante de tantos envolvidos, fica um tanto complexo juntar todas essas pontas soltas e analisar o conceito pela ótica da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), por exemplo. A KGeN, em si, não apresenta em seu site uma política de privacidade própria; a Humyn e a Baker Data (responsável pelo aplicativo móvel) possuem suas próprias políticas, que são levemente vagas e parecem não conversar entre si. Além disso, há um quarto ator nesse enigma: o mistério de para qual cliente da Humyn (e qual projeto) a gravação que mostra a placa do seu carro será compartilhada. Outro ponto que me preocupa é o tom de "oportunidade" que dão a isso. Estamos diante de um modelo que, na visão da maioria dos especialistas, explora a vulnerabilidade socioeconômica. Quando o dinheiro aperta, a ideia de receber alguns dólares por vídeo parece um alívio imediato — mas a exposição da nossa intimidade é incalculável. É o mesmo dilema ético que vimos no projeto Worldcoin, que buscava dados biométricos em troca de recompensas e foi banida do Brasil pelas autoridades de defesa do consumidor. E se você acha que eu sou a única pessoa com tal pensamento, tome nota: o modelo de gravação de atividades para alimentação de modelos geracionais já está sendo implementado em larga escala na Índia e gerando controvérsias por lá, especialmente por parte de trabalhadores de linhas de montagem que passaram a ter que atuar com um smartphone fixado em suas cabeças. A parte tecnológica em si Por fim, há um questionamento técnico que pouco se discute: o risco da "IA física". Estamos alimentando robôs com comportamentos humanos que são, por definição, seres falhos e repletos de nuances. O que acontecerá quando essa tecnologia, treinada com vídeos caseiros capturados sem contexto ou rigor, tiver que tomar decisões críticas no mundo real? A ideia de uma máquina que aprende a realizar tarefas domésticas observando humanos pode parecer um salto tecnológico, mas, na prática, pode resultar em alucinações de máquina que são perigosas em cenários mais peculiares, como robôs desenvolvidos para fins de segurança patrimonial ou até mesmo operações militares. Sem qualquer intenção de soar alarmista... Nesses casos, não se pode deixar de pensar que três ou quatro vídeos mal interpretados por um algoritmo podem resultar em incidentes que, até mesmo, colocam a vida dos seres humanos em jogo. A tecnologia é algo fascinante, mas somente quando desenvolvida acompanhada pela ética e respeito aos direitos fundamentais de privacidade. Quando isso é posto em segundo plano, inovações deixam de ser um avanço para a sociedade e podem virar um grande perigo à democracia. Talvez esta seja a hora de nos perguntarmos: estamos dispostos a, literalmente, abrir a porta das nossas casas para uma tecnologia que, no fundo, nem sabemos se está pronta para o mundo real?

  • NIST investe US$ 20 milhões para acelerar a fabricação de tecnologias quânticas nos EUA

    O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST) anunciou uma parceria com a SRI International para fortalecer a pesquisa, o desenvolvimento e a fabricação de tecnologias quânticas no país. Como parte da iniciativa, será criado o Quantum Manufacturing Engineering Center (QMEC), centro voltado ao desenvolvimento de componentes e sistemas quânticos escaláveis e de alto desempenho. O NIST fará um investimento inicial de US$ 20 milhões no projeto. Segundo o Departamento de Comércio dos EUA, o objetivo é acelerar a capacidade de fabricação da indústria quântica americana, reduzindo barreiras de engenharia e produção para ampliar a adoção comercial dessas tecnologias. A expectativa é que o centro impulsione avanços em áreas como computação quântica, sensores, comunicações, criptografia, biomedicina e outras aplicações estratégicas. A iniciativa faz parte da implementação da ordem executiva Ushering in the Next Frontier of Quantum Innovation, publicada em junho de 2026, que estabelece diretrizes para ampliar a liderança dos Estados Unidos em tecnologias quânticas. O acordo também integra a estratégia do NIST para acelerar a transição de tecnologias emergentes da fase de pesquisa para aplicações comerciais em parceria com a indústria. Segundo Paul Dabbar, vice-secretário de Comércio dos EUA, a ciência quântica tem potencial para gerar novas descobertas científicas e criar oportunidades econômicas significativas. Para ele, o novo centro reunirá especialistas da área para consolidar a liderança americana tanto no desenvolvimento quanto na fabricação em escala de sistemas quânticos. O diretor do NIST, Arvind Raman, destacou que a instituição possui décadas de pesquisa em ciência quântica que ajudaram a estabelecer a atual indústria do setor nos Estados Unidos. Segundo ele, a parceria público-privada com a SRI International fortalecerá a base industrial necessária para transformar pesquisas em produtos e aplicações comerciais. O QMEC também amplia uma colaboração iniciada em 2019 entre o NIST e a SRI International, responsável pela criação do Quantum Economic Development Consortium (QED-C), consórcio que reúne praticamente todos os principais desenvolvedores de tecnologias quânticas dos Estados Unidos, além de empresas usuárias da tecnologia. De acordo com o NIST, a experiência adquirida no QED-C identificou a engenharia de manufatura quântica como uma das principais lacunas para o crescimento sustentável da indústria. O novo centro foi criado justamente para enfrentar esse desafio, acelerando pesquisas, desenvolvimento de processos produtivos e validação comercial de componentes quânticos. A iniciativa faz parte da estratégia do instituto para fortalecer tecnologias consideradas prioritárias para a competitividade americana, incluindo inteligência artificial, ciência da informação quântica e biotecnologia, por meio de parcerias flexíveis entre governo, indústria e centros de pesquisa.

  • Pesquisa revela técnicas que podem contornar passkeys do Google Password Manager após infecção por malware

    Pesquisadores da Unit 42, da Palo Alto Networks, identificaram três técnicas que podem permitir que malwares assumam o controle de contas protegidas por passkeys armazenadas no Google Password Manager. Os ataques, entretanto, não exploram falhas na criptografia das passkeys, mas sim mecanismos de gerenciamento implementados pelo Chrome após um computador já ter sido comprometido. As técnicas, batizadas de Pass-ta-key, Silver Pass-ta-key e Golden Pass-ta-key, afetam o Google Password Manager em sistemas Windows equipados com Trusted Platform Module (TPM). Todos os cenários exigem que um malware já esteja em execução na máquina da vítima e, até o momento, não há evidências de exploração ativa nem registros de CVEs associados à pesquisa. Segundo a Unit 42, os ataques exploram a forma como o Chrome armazena chaves do dispositivo, realiza o re-registro de equipamentos e gerencia o processo de autenticação. Dependendo da técnica utilizada, o invasor pode obter uma autenticação válida, instalar uma chave de verificação controlada pelo atacante ou extrair o Security Domain Secret (SDS), segredo de 32 bytes usado para descriptografar as chaves privadas das passkeys sincronizadas na conta Google. As duas últimas técnicas são consideradas as mais preocupantes, pois podem permitir que o invasor continue acessando as contas da vítima a partir de outro computador, mesmo após perder o acesso inicial ao dispositivo comprometido. A primeira técnica, chamada Pass-ta-key, reutiliza a chave de identidade protegida pelo TPM do próprio equipamento para gerar uma autenticação válida. Nesse caso, a autenticação ocorre sem impressão digital, PIN ou qualquer interação visível do usuário. No entanto, o indicador User Verified (UV) permanece desativado. Os pesquisadores observaram que a eficácia desse método depende da implementação do serviço online. Plataformas que exigem obrigatoriamente a validação do indicador UV bloqueiam a tentativa de autenticação. Durante os testes, o GitHub rejeitou as credenciais, enquanto o eBay inicialmente aceitou a autenticação até corrigir o problema após a divulgação responsável da pesquisa. A segunda técnica, Silver Pass-ta-key, explora o processo de re-registro de dispositivos. Segundo a Unit 42, o malware força o Chrome a registrar novamente o equipamento e aproveita uma janela em que a chave de verificação do usuário ainda não foi criada para cadastrar uma chave controlada pelo invasor. Caso o serviço não valide se essa nova chave foi gerada por hardware confiável, futuras autenticações poderão ocorrer com o indicador UV habilitado, dispensando o dispositivo original da vítima. Já a terceira técnica, Golden Pass-ta-key, busca extrair da memória do Chrome o Security Domain Secret (SDS) durante o processo de re-registro. Com esse segredo, um invasor pode recuperar as chaves privadas sincronizadas das passkeys e reutilizá-las em seu próprio ambiente. A análise do código-fonte do Chromium confirma que esse segredo realmente é carregado temporariamente na memória do navegador, embora a viabilidade prática da extração e da persistência do ataque tenha sido descrita apenas pelos pesquisadores. A Unit 42 informou que o Google já eliminou uma exposição anterior do SDS presente nos logs do Chrome relacionados ao FIDO e que o eBay corrigiu a validação do indicador UV. No entanto, não há confirmação pública de que todas as técnicas apresentadas tenham sido totalmente mitigadas. Até 3 de agosto de 2026, também não havia registros dessas vulnerabilidades na National Vulnerability Database (NVD), nem comunicados públicos do Google informando quais versões do Chrome poderiam ser afetadas ou se houve correções completas para os três cenários. Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que a documentação pública do Google permite alterar o PIN do Google Password Manager ou apagar todos os dados armazenados, mas não esclarece se essas ações invalidam um Security Domain Secret eventualmente obtido por um invasor. Como medidas de proteção, os pesquisadores recomendam que serviços online configurem o parâmetro userVerification como obrigatório e validem efetivamente o indicador User Verified retornado durante a autenticação. Também sugerem que provedores de credenciais reforcem a verificação de hardware durante o re-registro de dispositivos, fortaleçam os mecanismos de recuperação de contas, limitem o acesso ao estado local das passkeys e evitem manter chaves sensíveis armazenadas em memória ou registradas em logs.

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