T-Mobile quer sair da VMware, mas ainda depende de suporte da Broadcom
- Cyber Security Brazil
- 2 de jul.
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A T-Mobile parece estar em processo de saída do ecossistema VMware, ao mesmo tempo em que trava uma disputa judicial com a Broadcom pelo direito de manter suporte a um ambiente de virtualização considerado crítico para suas operações internas. Segundo documentos judiciais, o caso envolve uma infraestrutura de grande escala, com software VMware executado em mais de 303 mil núcleos de CPU e usado como base para parte relevante da rede interna da operadora.
A disputa tem origem em um acordo firmado entre a T-Mobile e a VMware em agosto de 2023. Na ocasião, a operadora adquiriu licenças perpétuas e dois anos de suporte para determinados softwares, além de uma opção contratual para estender esse suporte por mais um ano. Pouco depois, a Broadcom concluiu a aquisição da VMware e mudou de forma significativa o modelo comercial da empresa.
Após assumir o controle da VMware, a Broadcom deixou de vender licenças perpétuas e contratos de suporte independentes para clientes que já possuíam esse tipo de licença. A companhia também reduziu o portfólio da VMware, que tinha mais de 150 produtos, para dois pacotes principais baseados em assinatura. Hoje, a estratégia comercial da Broadcom está concentrada principalmente no VMware Cloud Foundation, conhecido como VCF, uma suíte voltada para nuvens privadas corporativas.
A mudança gerou atrito com grandes clientes que afirmam ter direito contratual à extensão de suporte. AT&T e Tesco já tentaram exercer opções semelhantes. A AT&T chegou a um acordo confidencial, enquanto a Tesco continua discutindo o caso nos tribunais. A T-Mobile agora aparece em uma disputa parecida, mas com um agravante operacional importante: o ambiente VMware da empresa sustenta uma parte expressiva de sua infraestrutura interna.
Em uma das audiências, a defesa da T-Mobile descreveu a implementação VMware da operadora como a base de toda a rede interna e o local onde residem cerca de mil aplicações. Em outra petição, apresentada pela Broadcom, consta que a T-Mobile executa softwares VMware em mais de 303 mil núcleos de CPU, dimensão que ajuda a explicar a complexidade de qualquer migração.
De acordo com os documentos, a Broadcom teria informado em 2024 que não renovaria o suporte após o fim do contrato inicial de dois anos, previsto para 2025. As duas empresas continuaram discutindo possíveis novos acordos, enquanto a T-Mobile também buscava uma liminar para obrigar a Broadcom a fornecer o suporte estendido.
A Broadcom contestou a liminar e argumentou que a T-Mobile esperou tempo demais para pedir a medida judicial. A empresa sustenta, em linhas gerais, que não poderia oferecer suporte nos termos originais porque os produtos cobertos pelo contrato deixaram de existir em sua forma anterior. Também afirma que seus contratos permitem negar suporte para produtos descontinuados e que o modelo de assinatura se tornou o padrão do setor.
Em determinado momento da negociação, a T-Mobile sugeriu um acordo de US$ 20 milhões para obter mais dois anos de suporte. Uma declaração apresentada na semana passada por Kevin Luu, vice-presidente de tecnologia da T-Mobile, afirma que a operadora buscava esse arranjo para conseguir concluir a transição para fora da VMware em um ritmo mais controlado.
A Justiça acabou concedendo uma liminar que obrigou a Broadcom a oferecer suporte além de agosto de 2025. Como condição, a T-Mobile teve de pagar US$ 5,28 milhões e apresentar uma garantia de US$ 500 mil. A Broadcom continuou prestando suporte, mas também passou a buscar indenização, alegando que a liminar teria impedido a conclusão de um novo acordo comercial com a operadora.
A T-Mobile rejeita esse argumento. Para a empresa, não faria sentido afirmar que a Broadcom perdeu um contrato definitivo se as duas partes ainda estavam discutindo possíveis termos comerciais. A operadora também questiona o valor proposto pela Broadcom para a continuidade do suporte.
Segundo os documentos, a Broadcom propôs cobrar US$ 24 milhões pelo suporte estendido de seis produtos. A justificativa apresentada foi que seriam necessários mais de 20 profissionais para atender à T-Mobile. A operadora rebateu esse ponto ao afirmar que fez apenas duas chamadas de suporte em 2026, o que, segundo sua visão, não sustentaria a necessidade de uma equipe tão grande nem de um custo tão elevado.
O caso ganhou urgência porque a liminar atual expira em 3 de agosto de 2026. Caso não haja nova decisão ou acordo, a T-Mobile pode ficar sem suporte para um ambiente VMware de grande porte enquanto tenta concluir sua migração.
Um detalhe relevante é que a juíza responsável pelo caso, Jennifer G. Schecter, também presidiu a disputa entre VMware e AT&T. Naquele processo, as partes chegaram a um acordo confidencial. Em uma audiência realizada em outubro de 2025, Schecter indicou que considerava o caso da T-Mobile ainda mais forte que o da AT&T.
A defesa da VMware argumentou que os casos seriam diferentes porque a AT&T teria agido rapidamente, enquanto a T-Mobile teria esperado muitos meses antes de buscar o suporte estendido e a liminar. A empresa também afirmou que milhares de clientes já migraram para assinaturas, tratando T-Mobile e AT&T como exceções em um universo de cerca de 10 mil clientes.
A juíza, porém, demonstrou ceticismo diante desse argumento. Para ela, o fato de outros clientes terem aceitado a migração para assinatura não significa necessariamente concordância plena com a estratégia da Broadcom. Alguns clientes podem não querer enfrentar uma disputa judicial, podem considerar a briga inviável financeiramente ou podem ter ambientes menores e mais fáceis de migrar.
A Broadcom, por sua vez, defende que os clientes que migram para assinaturas VCF passam a operar uma infraestrutura mais eficiente, capaz de melhorar o desempenho geral dos negócios. A empresa também aponta o crescimento de receita da VMware como evidência de que sua estratégia comercial está funcionando. Na semana passada, a VMware citou a Nationwide Building Society, do Reino Unido, como uma das organizações que aderiram ao VCF.
Para grandes empresas que dependem de plataformas legadas de virtualização, o embate mostra como mudanças de licenciamento podem se transformar em risco operacional. Mesmo quando há uma estratégia de migração definida, ambientes com centenas de milhares de núcleos, milhares de aplicações e dependências internas profundas não costumam ser substituídos rapidamente. No caso da T-Mobile, a disputa não envolve apenas preço ou modelo de assinatura, mas a continuidade do suporte a uma base tecnológica considerada central para suas operações.
A decisão final poderá ter impacto além da própria operadora. Caso a Justiça reconheça de forma ampla o direito de clientes a extensões de suporte previstas em contratos anteriores, outros grandes usuários de licenças perpétuas podem ganhar força em disputas semelhantes. Se a Broadcom prevalecer, a pressão para migração a modelos de assinatura tende a aumentar, especialmente entre organizações que ainda mantêm ambientes VMware extensos e difíceis de substituir no curto prazo.



