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Ney López leva debate sobre ameaça quântica e soberania digital ao Centro de Defesa Cibernética da Aeronáutica



Palestra apresentada à Força Aérea Brasileira discutiu como a computação quântica pode comprometer os mecanismos criptográficos atuais e defendeu que a preparação para a transição pós-quântica deve começar antes da chegada de computadores capazes de quebrar RSA e ECC em larga escala.


O pesquisador em Comunicação e Tecnologia Quântica Ney López realizou, em 3 de julho de 2026, um workshop técnico no Centro de Defesa Cibernética da Aeronáutica, o CDCAER, sobre os impactos da computação quântica na proteção das comunicações militares e na soberania digital brasileira.


Intitulada “Computação Quântica e Cibersegurança na Defesa — Ameaças, Proteção e Soberania Digital na Era Quântica”, a apresentação abordou desde os fundamentos da computação quântica até estratégias práticas para a migração de sistemas militares para algoritmos resistentes a ataques quânticos.


Em sua publicação sobre o encontro, Ney destacou que a palestra tratou de uma “corrida silenciosa” já em andamento, na qual informações criptografadas podem estar sendo capturadas hoje para serem decifradas no futuro. O pesquisador também agradeceu a Allan Victor, Bruno Alvarenga e à equipe do CDCAER pela recepção e pelo nível técnico das discussões.


Um dos principais pontos apresentados foi o conceito de Harvest Now, Decrypt Later, ou “coletar agora e decifrar depois”.


Nesse modelo de ameaça, um adversário não precisa possuir atualmente um computador quântico capaz de quebrar a criptografia. Ele pode interceptar e armazenar comunicações protegidas por RSA ou criptografia de curvas elípticas, aguardando o momento em que uma máquina quântica suficientemente avançada permita recuperar as informações.


O risco é especialmente relevante para organizações militares, governos e operadores de infraestrutura crítica, porque parte dos dados produzidos hoje precisa permanecer sigilosa por décadas. Informações relacionadas a estratégias de defesa, identidades de agentes, projetos militares, acordos internacionais, sistemas de comando e controle e capacidades operacionais podem continuar sensíveis muito depois de terem sido transmitidas.


O material apresentado por Ney adotou uma janela estimada entre 2030 e 2035 para o chamado Q-Day, expressão utilizada para representar o momento em que um computador quântico criptograficamente relevante poderia comprometer os principais algoritmos assimétricos utilizados atualmente. A estimativa, entretanto, não deve ser interpretada como uma data confirmada. O desenvolvimento da tecnologia depende de avanços em correção de erros, estabilidade dos qubits, escalabilidade e construção de sistemas tolerantes a falhas.


Essa incerteza é justamente parte do problema: como grandes ambientes de defesa podem levar anos para mapear dependências, substituir equipamentos, renovar certificados e homologar novos protocolos, esperar pela confirmação do Q-Day poderá tornar a migração inviável dentro do prazo necessário.


Durante o workshop, Ney explicou as diferenças entre computadores clássicos e quânticos e como determinados algoritmos quânticos podem afetar os fundamentos matemáticos utilizados pela segurança digital.


O algoritmo de Shor, apresentado pelo matemático Peter Shor em 1994, oferece uma forma quântica eficiente de resolver problemas de fatoração de números inteiros e logaritmos discretos.


Esses problemas sustentam grande parte da criptografia assimétrica. Em um cenário com computadores quânticos tolerantes a falhas e em escala suficiente, algoritmos como RSA, Diffie-Hellman e criptografia de curvas elípticas poderiam deixar de oferecer a proteção esperada.


O impacto alcançaria certificados digitais, assinaturas eletrônicas, infraestruturas de chaves públicas, conexões TLS, túneis VPN, protocolos SSH, autenticação de dispositivos e mecanismos utilizados para validar atualizações de firmware.


Já o algoritmo de Grover oferece uma aceleração quadrática para determinados problemas de busca. Na prática, ele reduz a margem de segurança das chaves simétricas, embora não provoque o mesmo tipo de ruptura completa associado ao algoritmo de Shor.


Como referência, o material explicou que o AES-128 poderia oferecer uma resistência quântica equivalente a aproximadamente 64 bits, enquanto o AES-256 permaneceria com uma margem estimada em torno de 128 bits. Por esse motivo, a adoção de AES-256 aparece entre as medidas que podem ser iniciadas antes mesmo da migração completa para a criptografia pós-quântica.


A palestra traduziu o problema para o contexto da Força Aérea Brasileira e identificou diferentes categorias de sistemas que precisam ser consideradas em uma avaliação de risco quântico.


Entre os ativos classificados como críticos estavam o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro — SISCEAB, as comunicações táticas em rádio, os sistemas de comando e controle e as infraestruturas utilizadas para autenticar e transmitir informações operacionais.


O material também destacou a PKI militar, os sistemas de guiagem, os dados de sensores, a telemetria de aeronaves, os acordos de defesa e os documentos classificados compartilhados com organizações parceiras.


O comprometimento desses ambientes não representaria apenas perda de confidencialidade. Dependendo do sistema, também poderia afetar autenticidade, integridade, rastreabilidade e confiança nas ordens transmitidas.


Uma assinatura digital vulnerável, por exemplo, poderia colocar em dúvida a origem de uma mensagem, de um documento ou de uma atualização de software. Em sistemas de comando e controle, essa perda de confiança pode produzir consequências operacionais muito superiores ao simples vazamento de informações.


A principal resposta prática apresentada foi a criptografia pós-quântica, conhecida pela sigla PQC.


Diferentemente da computação ou da comunicação quântica, os algoritmos pós-quânticos podem ser executados em equipamentos convencionais. Eles utilizam problemas matemáticos que, de acordo com o conhecimento atual, permanecem difíceis mesmo para computadores quânticos de grande escala.


Em agosto de 2024, o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos, o NIST, publicou os três primeiros padrões federais de criptografia pós-quântica:


FIPS 203 — ML-KEM, destinado ao estabelecimento e encapsulamento de chaves;

FIPS 204 — ML-DSA, voltado para assinaturas digitais;

FIPS 205 — SLH-DSA, uma alternativa de assinatura baseada em funções hash.


O ML-KEM deriva do algoritmo anteriormente conhecido como CRYSTALS-Kyber. O ML-DSA deriva do CRYSTALS-Dilithium, enquanto o SLH-DSA tem origem no SPHINCS+. O NIST recomenda que as organizações iniciem a transição, especialmente quando protegem informações que precisam permanecer confidenciais por longos períodos.


Para ambientes militares, esses padrões podem ser empregados na substituição gradual de RSA, ECDH, RSA-PSS e ECDSA em funções como troca de chaves, emissão de certificados, assinatura de documentos, autenticação de sistemas e proteção de firmware.


Outra distinção importante da palestra foi entre criptografia pós-quântica e Quantum Key Distribution, ou QKD.


A PQC é implementada principalmente em software e pode ser aplicada a dispositivos, redes, aplicações e serviços em nuvem. Já a QKD utiliza propriedades físicas de estados quânticos para distribuir chaves criptográficas, exigindo equipamentos especializados, emissores e detectores, além de enlaces ópticos ou estruturas de comunicação compatíveis.


Por causa desses requisitos, a QKD tende a ser direcionada a conexões específicas e estratégicas, como comunicações entre instalações fixas, centros de comando, bases militares ou infraestruturas críticas.


A avaliação apresentada por Ney foi de que a PQC deve constituir a base da transição, enquanto a QKD pode atuar como camada complementar em nós de alta criticidade. Ela não elimina a necessidade de proteger endpoints, autenticar dispositivos, atualizar protocolos ou desenvolver sistemas com agilidade criptográfica.


No Brasil, o QuIIN, centro de competência do SENAI CIMATEC em Salvador, atua em pesquisa, capacitação, inovação industrial e desenvolvimento de tecnologias quânticas. A iniciativa é reconhecida pela EMBRAPII como Centro de Competência em Tecnologias Quânticas e busca aproximar universidades, pesquisadores, startups e empresas.


A palestra também apresentou um roadmap de transição entre 2026 e 2032, dividido em inventário criptográfico, implementação de modelos híbridos, migração ativa e adoção de um ambiente prioritariamente pós-quântico.


No modelo híbrido, algoritmos clássicos e pós-quânticos são utilizados em conjunto. Essa abordagem permite validar desempenho, compatibilidade e interoperabilidade sem abandonar imediatamente os mecanismos existentes.


O primeiro passo, porém, não é substituir todos os certificados ou adquirir equipamentos quânticos. É descobrir onde a criptografia está sendo utilizada.


Isso exige mapear algoritmos, protocolos, certificados, bibliotecas, aplicações, equipamentos legados, HSMs, sistemas embarcados e integrações com terceiros. Cada ativo deve ser classificado considerando sua criticidade, o período durante o qual os dados precisam permanecer protegidos e o tempo necessário para realizar a migração.


Também é necessário desenvolver crypto-agility, capacidade de substituir algoritmos e parâmetros criptográficos sem reconstruir completamente os sistemas. Essa característica reduz a dependência de um único padrão e facilita futuras mudanças diante de vulnerabilidades, novas exigências regulatórias ou avanços tecnológicos.


A apresentação utilizou a suíte CNSA 2.0, da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, como referência para sistemas de defesa. A orientação oficial prevê uma transição escalonada: novos produtos e serviços deverão priorizar CNSA 2.0 a partir de 2027, equipamentos incompatíveis deverão ser substituídos até o fim de 2030 e a suíte deverá se tornar obrigatória para os sistemas abrangidos em 2031, ressalvadas as exceções previstas.


Além da proteção técnica, o workshop relacionou a preparação pós-quântica à soberania digital.


Para Ney, o Brasil precisa desenvolver capacidade própria de pesquisa, avaliação, certificação e auditoria de tecnologias quânticas. A dependência exclusiva de fornecedores, implementações e critérios estrangeiros pode criar limitações estratégicas para a proteção das comunicações nacionais.


Ao mesmo tempo, a interoperabilidade com aliados exige compatibilidade com padrões internacionais. O desafio consiste em acompanhar referências como NIST e CNSA 2.0 sem abandonar a construção de conhecimento, infraestrutura e capacidade de decisão no país.


Ao final, a palestra indicou três medidas que podem ser iniciadas imediatamente: realizar o inventário dos sistemas mais críticos, substituir AES-128 por AES-256 onde houver compatibilidade e formar um grupo multidisciplinar para conduzir a transição pós-quântica.


A mensagem central do encontro foi sintetizada por Ney em sua publicação: “A criptografia pós-quântica não é pauta para depois do Q-Day; é para agora.”

 
 
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