Meta processa anunciantes do Brasil, China e Vietnã por golpes com uso de imagem de celebridades
- Cyber Security Brazil
- 27 de fev.
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A Meta anunciou que está movendo ações judiciais contra anunciantes considerados enganosos sediados no Brasil, China e Vietnã, acusados de utilizar suas plataformas para aplicar golpes digitais — especialmente esquemas conhecidos como celeb-bait scams, que exploram imagens e vozes de figuras públicas para atrair vítimas.
Como parte das medidas imediatas, a empresa suspendeu métodos de pagamento utilizados pelos envolvidos, desativou contas relacionadas às campanhas fraudulentas e bloqueou domínios usados para redirecionar usuários a sites maliciosos.
Além das ações judiciais, a companhia também enviou notificações extrajudiciais a oito consultores de marketing que promoviam serviços para driblar os sistemas de moderação da plataforma. Entre as ofertas estavam supostos serviços de “desbanimento” de contas e aluguel de perfis confiáveis para contornar os controles internos de anúncios.
Brasileiros estão entre os alvos das ações
Pelo menos três anunciantes — dois do Brasil e um da China — foram identificados como responsáveis por golpes com uso indevido de imagem de celebridades.
No Brasil, Vitor Lourenço de Souza e Milena Luciani Sanchez são acusados de utilizar imagens e áudios alterados de figuras públicas para promover produtos de saúde fraudulentos. Também foram citadas as empresas B&B Suplementos e Cosméticos Ltda. (Brites Corp), Brites Academia de Treinamento Ltda., além de Daniel de Brites Macieira Cordeiro e José Victor de Brites Chaves de Araújo, apontados como parte de uma operação que usava imagens sintéticas de um médico conhecido para vender produtos sem aprovação regulatória e até cursos ensinando a replicar a mesma tática.
Na China, a Shenzhen Yunzheng Technology Co., Ltd teria utilizado anúncios com celebridades para atrair vítimas em diversos países, incluindo Estados Unidos e Japão, direcionando-as a grupos de investimento fraudulentos.
Segundo a Meta, mais de 500 mil celebridades e figuras públicas já estão protegidas por um programa específico criado para evitar o uso indevido de suas imagens em golpes desse tipo.
Vietnã e técnicas avançadas de ocultação
Outra ação foi movida contra o anunciante vietnamita Lý Văn Lâm, acusado de utilizar técnicas de cloaking — método que apresenta uma versão “limpa” de um site durante a análise da plataforma e outra versão maliciosa aos usuários reais.
Nesse caso, os anúncios prometiam produtos com grandes descontos de marcas conhecidas em troca do preenchimento de pesquisas. As vítimas eram direcionadas a sites falsos, onde inseriam dados de cartão de crédito para comprar produtos que nunca eram entregues. Em muitos casos, também eram cobradas taxas recorrentes não autorizadas, prática conhecida como fraude por assinatura.
Escala industrial dos golpes
A ofensiva judicial ocorre poucos meses após investigação da Reuters revelar que 19% dos US$ 18 bilhões em receita publicitária da Meta na China em 2024 vieram de anúncios ligados a golpes, jogos ilegais, pornografia e outros conteúdos proibidos. A repercussão levou a empresa a revisar seu programa Badged Partners.
Análise conduzida pela Gen Digital identificou que, em um universo de 14,5 milhões de anúncios veiculados na União Europeia e no Reino Unido em apenas 23 dias, quase 31% continham links para golpes, phishing ou malware. Mais de 300 milhões de impressões foram geradas por esse tipo de conteúdo em menos de um mês.
O estudo também apontou forte concentração: apenas 10 anunciantes foram responsáveis por mais de 56% dos anúncios fraudulentos identificados, muitos com infraestrutura e métodos de pagamento conectados à China e Hong Kong — o que indica operações organizadas em escala industrial.
Ecossistema criminoso e novas táticas
Investigações recentes revelaram ainda um ecossistema sofisticado de fraudes digitais, incluindo:
Combinação de malvertising com o modelo de “pig butchering”, no qual vítimas são convencidas, por meio de anúncios de investimentos e supostos especialistas (muitas vezes chatbots com IA), a aplicar valores crescentes até serem solicitadas a pagar taxas para liberar lucros inexistentes. Mais de 23 mil domínios já foram identificados nesse ecossistema.
Comprometimento de roteadores para alteração de configurações de DNS e redirecionamento seletivo de tráfego ligado a serviços como Okta e Shopify para páginas fraudulentas.
Redes de notificações push maliciosas direcionadas a usuários do Android Chrome, com alertas falsos de infecção por malware.
Mais de 150 sites clonados que se passavam por escritórios de advocacia dos EUA e Reino Unido, oferecendo falsos serviços de recuperação de valores perdidos em golpes anteriores.
Pressão regulatória e reação internacional
A proliferação de golpes, impulsionada por um mercado crescente de “pig butchering-as-a-service” (PBaaS), também tem mobilizado autoridades internacionais. No início do mês, o governo do Camboja anunciou novas ações para desmontar redes de fraudes digitais em seu território.
Segundo autoridades locais, 48 operações foram realizadas nos primeiros nove meses de 2025, resultando em 168 prisões e na deportação de 2.722 pessoas. O governo afirma que a atividade fraudulenta caiu pela metade desde o início do ano.
A Meta, por sua vez, busca demonstrar aos reguladores que está adotando medidas mais agressivas para conter o uso abusivo de sua infraestrutura publicitária, em um momento em que a pressão sobre grandes plataformas digitais cresce globalmente.


