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Margaret Hamilton, pioneira do software que ajudou a levar o homem à Lua, morre aos 90 anos

há 6 minutos
3 min de leitura

Margaret Hamilton, engenheira de software norte-americana que liderou o desenvolvimento dos programas de voo das missões Apollo, morreu em 30 de setembro, aos 90 anos. Seu trabalho foi fundamental para o sucesso da Apollo 11, missão que levou os primeiros seres humanos à superfície da Lua, em 1969.


Hamilton comandou a equipe responsável pelo software embarcado dos módulos de comando e lunar da NASA. Durante a histórica descida da Apollo 11, os sistemas desenvolvidos por sua equipe permitiram que o computador de orientação continuasse executando funções essenciais, mesmo diante de uma sobrecarga que poderia comprometer o pouso.


Nascida em Paoli, Indiana, Hamilton estudou matemática na Universidade de Michigan e no Earlham College, onde se formou em 1958, com formação complementar em filosofia. Em 1959, mudou-se para Boston e começou a trabalhar no Massachusetts Institute of Technology (MIT), ao lado de Edward Lorenz, que posteriormente se tornaria um dos pioneiros da teoria do caos.

No MIT, programou computadores LGP-30 e DEC PDP-1 para aplicações de previsão meteorológica, antes de participar de projetos aeroespaciais. Em 1965, ingressou na equipe responsável pelo desenvolvimento dos sistemas computacionais das missões Apollo.


Uma de suas primeiras tarefas foi criar um programa para procedimentos de abortagem de missão, considerado pouco relevante pelos colegas porque acreditavam que dificilmente seria utilizado. Hamilton batizou o software de "Forget It" (Esqueça).


Entretanto, uma missão não tripulada precisou executar o procedimento, e o programa funcionou conforme previsto. Em entrevista ao Computer History Museum, Hamilton relembrou que o episódio mudou sua posição dentro da equipe, transformando-a rapidamente em uma referência técnica.


O software que ajudou a salvar o pouso da Apollo 11

Durante os minutos finais da descida da Apollo 11, em julho de 1969, o computador de orientação do módulo lunar começou a emitir alarmes inesperados. Os avisos indicavam executive overflows, situação em que o sistema não conseguia concluir todas as tarefas solicitadas.


A ocorrência levou os astronautas a questionarem se seria seguro continuar o pouso. Entretanto, o software desenvolvido pela equipe de Hamilton havia sido projetado com mecanismos de recuperação e priorização de tarefas.


Esses recursos permitiram que o computador interrompesse atividades menos importantes e mantivesse as operações essenciais de navegação e pouso. O engenheiro Jack Garman informou ao controlador de orientação Steve Bales que os alarmes não exigiam o cancelamento da missão.


Com a autorização para prosseguir, a tripulação conseguiu pousar na Lua e posteriormente retornar à Terra. A investigação identificou que a sobrecarga havia sido provocada por entradas indesejadas provenientes do sistema de radar de encontro.


Hamilton também defendia mecanismos de proteção contra erros humanos. Durante uma simulação, sua filha de quatro anos havia provocado uma falha no sistema ao acionar um programa de pré-lançamento durante um voo simulado.


A engenheira propôs implementar uma proteção para impedir esse tipo de situação, mas a sugestão foi inicialmente rejeitada porque se acreditava que astronautas não cometeriam o mesmo erro. Posteriormente, um tripulante da Apollo 8 realizou uma operação semelhante, levando à revisão do software.


Contribuições para a engenharia de software moderna

Durante o programa Apollo, Hamilton passou a utilizar a expressão "engenharia de software" para descrever sua profissão, em uma época em que o desenvolvimento de programas não recebia o mesmo reconhecimento das demais disciplinas da engenharia.


Ela também se tornou conhecida por uma fotografia histórica em que aparece ao lado de uma pilha de documentos contendo o código desenvolvido por sua equipe para as missões Apollo, com altura quase equivalente à sua.


Após o programa espacial, Hamilton fundou e cofundou empresas de tecnologia especializadas em sistemas tolerantes a falhas. Entre suas contribuições estão a metodologia Development Before the Fact (DBTF), voltada à prevenção antecipada de erros, e a Universal Systems Language (USL), utilizada no projeto de sistemas.


Em 2016, recebeu do então presidente Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade, uma das maiores honrarias civis dos Estados Unidos. A pioneira da computação Grace Hopper também recebeu a distinção, de forma póstuma.

Na ocasião, a Casa Branca destacou as contribuições de Hamilton para conceitos como software assíncrono, escalonamento de prioridades, apresentação de informações prioritárias e mecanismos de decisão com participação humana.


Seu trabalho ajudou a estabelecer fundamentos para o desenvolvimento de sistemas computacionais altamente confiáveis, especialmente em aplicações nas quais falhas podem provocar consequências críticas.


Segundo o MIT, Hamilton deixa uma filha, um genro, dois netos, quatro bisnetos e três irmãos.

 
 
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