Mainframe volta ao radar: Gartner aponta que migração pode ser mais barata que manter VMware
- Cyber Security Brazil
- há 4 horas
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Após anos sendo tratado como tecnologia legada, o mainframe volta ao centro das decisões estratégicas de infraestrutura corporativa. Um estudo recente do Gartner revela que, em determinados contextos, migrar workloads de ambientes VMware para plataformas de mainframe da IBM pode ser mais econômico — especialmente diante das mudanças de licenciamento promovidas pela Broadcom.
A análise ganha ainda mais relevância quando combinada com dados mais amplos do próprio relatório “The State of the IBM Mainframe in 2026”, que aponta uma mudança estrutural no mercado: o mainframe deixou de ser visto como um ativo em declínio e passou a ser reposicionado como um pilar estratégico em arquiteturas híbridas de TI.
Segundo Alessandro Galimberti, analista do Gartner, organizações com grandes ambientes virtualizados — especialmente aquelas que operam entre 500 e 700 máquinas virtuais Linux — estão reavaliando o custo total de propriedade (TCO) após a exigência da Broadcom de adoção do pacote completo do VMware Cloud Foundation. Essa mudança tem elevado significativamente os custos, tornando alternativas como o mainframe economicamente viáveis em certos cenários.
Do ponto de vista técnico, o diferencial do mainframe está na sua arquitetura nativa. Recursos como alta disponibilidade, consistência transacional e sincronização de dados já fazem parte da plataforma, eliminando a necessidade de desenvolvimento dessas capacidades na camada de aplicação — algo comum em ambientes distribuídos e multi-cloud. Essa característica reduz a complexidade operacional e acelera o desenvolvimento de sistemas críticos.
Além disso, o mainframe continua sendo uma das plataformas mais robustas para aplicações que exigem estabilidade de longo prazo. Diferente de ambientes cloud tradicionais, que demandam ciclos frequentes de atualização e testes (geralmente a cada 5 a 8 anos), o mainframe mantém compatibilidade retroativa por décadas, sendo capaz de executar códigos desenvolvidos há mais de 50 anos sem necessidade de reescrita.
Esse nível de continuidade operacional é especialmente relevante para setores como financeiro, governo e grandes indústrias, onde a integridade transacional e a previsibilidade são essenciais. Ao mesmo tempo, a IBM tem reforçado sua estratégia de inovação, com lançamentos como o z17 e o acelerador Spyre, voltado para cargas de inteligência artificial — incluindo inferência de modelos generativos dentro do próprio mainframe.
No campo da segurança, a plataforma também mantém uma posição diferenciada. O mainframe é historicamente considerado um dos ambientes mais seguros da indústria, com recursos integrados como criptografia pervasiva, gerenciamento de identidade robusto (RACF, ACF2, Top Secret) e isolamento lógico avançado. No entanto, o Gartner alerta que, assim como qualquer outra plataforma moderna, ele não está imune a ameaças como ransomware, exigindo adoção de monitoramento contínuo e controles de privilégio mínimo.
Apesar dos avanços, o modelo não está isento de desafios relevantes. O principal deles é a escassez de profissionais qualificados, considerada hoje o maior risco para a continuidade do crescimento do ecossistema. Diferente do cloud, que possui ampla acessibilidade e comunidades massivas, o mainframe ainda carece de programas mais abertos para formação de novos talentos, o que limita a adoção em larga escala.
Outro ponto crítico é o modelo de mercado concentrado. O ecossistema de software para mainframe é dominado por poucos fornecedores (ISVs), que frequentemente adotam políticas agressivas de precificação. Isso obriga as organizações a dedicarem esforços significativos em negociações contratuais e estratégias de renovação, em vez de focarem no valor de negócio das soluções.
Além disso, o risco de lock-in tecnológico permanece elevado. A dependência de fornecedores específicos pode limitar a flexibilidade estratégica das empresas e desencorajar customizações mais profundas, com receio de dificultar uma eventual migração futura.
Curiosamente, o próprio movimento de migração para fora do mainframe — amplamente incentivado por integradores globais nas últimas décadas — está sendo revisto. O Gartner destaca que muitos desses projetos resultaram em custos superiores ao esperado, além de disrupções operacionais significativas e até perdas financeiras.
Como reflexo dessa mudança de percepção, a consultoria projeta que até 2030 cerca de 75% dos fornecedores focados em “mainframe exit” deverão mudar seu modelo de negócio ou deixar o mercado, enquanto menos de 10% das organizações que utilizam mainframe atualmente planejam abandoná-lo.
Esse cenário reforça uma tendência clara: a discussão deixou de ser apenas “modernizar ou migrar” e passou a envolver uma análise mais pragmática de custo, risco e valor operacional. Em muitos casos, manter — ou até expandir — o uso de mainframes pode ser a decisão mais racional.


