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Home office, e não IA, pode estar afetando vagas para jovens profissionais


O avanço do trabalho remoto pode estar dificultando a entrada de jovens profissionais no mercado de trabalho, segundo uma análise do Federal Reserve de Nova York. Embora recém-formados e profissionais em início de carreira consigam manter produtividade trabalhando de casa, a qualidade do trabalho entregue pode ser inferior em comparação com ambientes presenciais, especialmente pela redução de feedback, treinamento e mentoria.


De acordo com o estudo, o desemprego entre jovens aumentou significativamente desde a pandemia de COVID-19 e não recuou no mesmo ritmo observado entre profissionais mais velhos e experientes com ensino superior. A análise aponta que a expansão do trabalho remoto no período pós-pandemia pode estar diretamente ligada a essa dificuldade maior de contratação de trabalhadores menos experientes.


Segundo o Fed de Nova York, o trabalho remoto tornou mais difícil para gestores treinarem e orientarem novos funcionários. Como resultado, empresas podem estar mais relutantes em contratar profissionais juniores para funções distribuídas, nas quais o contato presencial com líderes e colegas mais experientes é reduzido.


O relatório estima que o desemprego entre jovens tenha aumentado 20% desde a pandemia. Desse crescimento, 64% seria atribuível diretamente ao trabalho remoto, e não à inteligência artificial. Os pesquisadores reconhecem que a IA pode se tornar um fator relevante no futuro, mas afirmam que a alta no desemprego juvenil começou antes da rápida difusão das ferramentas de IA generativa.


A conclusão contraria parte do debate recente sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. Nos últimos anos, a IA tem sido apontada como uma das principais ameaças a vagas de entrada, especialmente em áreas como tecnologia, atendimento, análise de dados, marketing e produção de conteúdo. No entanto, os pesquisadores afirmam que, mesmo ao controlar a exposição das ocupações à IA, a diferença entre trabalhadores jovens e mais experientes permanece.


A análise também entra em tensão com a percepção positiva de muitos profissionais sobre o home office. Desde a pandemia, diversos trabalhadores passaram a defender o trabalho remoto por permitir mais flexibilidade, redução de custos, economia de tempo com deslocamento e melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Em muitos casos, estudos e relatos de empresas indicaram que o trabalho remoto não provocou queda significativa na produtividade.


O ponto central do estudo, porém, não está apenas na quantidade de trabalho produzido. O documento de trabalho associado ao relatório analisou que profissionais juniores em regime remoto podem até realizar mais tarefas, mas a qualidade do resultado tende a cair. A diferença está no acesso limitado a comentários construtivos, revisão informal e aprendizado prático no contato diário com colegas.


O estudo foi conduzido por Natalia Emanuel, economista do Fed de Nova York, em conjunto com Emma Harrington, professora de economia da Universidade da Virgínia, e Amanda Pallais, professora de Harvard. A pesquisa analisou especificamente desenvolvedores de software, tornando o levantamento particularmente relevante para o setor de tecnologia.


Segundo os achados, desenvolvedores experientes que migraram do trabalho presencial para o remoto apresentaram pouca mudança na qualidade do código produzido. Essa qualidade foi medida por indicadores como code churn, que representa a frequência com que trechos de código precisam ser alterados após a entrega, e a quantidade de bugs introduzidos.


Entre profissionais menos experientes, o efeito foi diferente. Quando trabalham próximos a colegas, eles recebem mais feedback sobre suas entregas e têm mais oportunidades de mentoria. Mesmo uma pequena distância física, como um desenvolvedor júnior alocado em outra área do escritório, pode reduzir as interações informais que ajudam no aprendizado. No regime remoto, essa perda tende a ser mais acentuada.


Os pesquisadores afirmam que a redução de feedback afeta especialmente trabalhadores jovens, que deixam de receber comentários construtivos importantes para seu desenvolvimento profissional. Em áreas técnicas, como desenvolvimento de software, esse tipo de orientação é essencial para aprimorar práticas de codificação, arquitetura, revisão de código, resolução de problemas e entendimento dos padrões internos de uma equipe.


O fenômeno não se restringe ao desenvolvimento de software. Um estudo de 2024 de Emanuel e Harrington analisou funcionários de atendimento ao cliente enviados para o trabalho remoto e encontrou efeito semelhante. Segundo a pesquisa, o número de chamadas necessárias para resolver um problema e o tempo total de resolução aumentaram, sugerindo queda na qualidade do trabalho realizado fora do ambiente presencial.


Esses resultados ajudam a explicar por que empresas podem estar menos dispostas a contratar profissionais em início de carreira para vagas remotas. A preocupação não é apenas se o trabalhador será produtivo, mas se terá condições de aprender, evoluir e entregar com qualidade sem a estrutura de acompanhamento necessária nos primeiros anos de carreira.


Para os pesquisadores, jovens que buscam vagas remotas enfrentam um duplo desafio. De um lado, têm menos acesso ao treinamento e à mentoria necessários para desenvolver suas habilidades. De outro, empresas podem evitar contratá-los justamente por entenderem que não conseguirão oferecer suporte adequado em um modelo totalmente distribuído.


O estudo também ajuda a contextualizar as políticas de retorno ao escritório adotadas por muitas empresas nos últimos anos. Diversas organizações justificaram mandatos de retorno presencial ou modelos híbridos com base na importância da convivência para mentoria, aprendizado e colaboração. A pesquisa sugere que esse argumento pode ser mais relevante para profissionais juniores do que para trabalhadores experientes.


A ironia, segundo os autores, é que, quando as vagas se tornam mais escassas, fica ainda mais difícil para jovens profissionais obterem justamente o treinamento de que precisam. Em um mercado mais competitivo, empresas tendem a preferir candidatos já prontos, com experiência acumulada e menor necessidade de acompanhamento próximo.


Se as conclusões se confirmarem, uma possível resposta seria reservar funções totalmente remotas para profissionais mais experientes e direcionar trabalhadores em início de carreira para modelos presenciais ou híbridos. Nesse formato, jovens profissionais poderiam passar ao menos alguns dias por semana no escritório, interagindo diretamente com colegas mais experientes, recebendo feedback mais frequente e acelerando seu desenvolvimento.


O debate, no entanto, não elimina os benefícios do trabalho remoto. A análise indica que o modelo pode funcionar bem para profissionais seniores e equipes maduras, mas apresenta limitações quando aplicado a trabalhadores que ainda dependem intensamente de aprendizado prático, observação e orientação. Para empresas de tecnologia e áreas que contratam muitos recém-formados, o desafio passa a ser equilibrar flexibilidade com mecanismos efetivos de formação profissional.


A conclusão do Fed de Nova York desloca parte da discussão sobre o futuro do trabalho. Em vez de atribuir imediatamente à inteligência artificial a dificuldade dos jovens no mercado, o estudo aponta para uma transformação organizacional iniciada na pandemia: a perda de ambientes presenciais de aprendizagem. Para recém-formados, o problema pode não ser apenas competir com máquinas, mas encontrar empresas dispostas a investir tempo e estrutura para formar novos talentos em um mercado cada vez mais distribuído.

 
 
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