Hackers invadem câmeras Chinesas na Ucrânia explorando recursos de acesso remoto

Pesquisadores de segurança do governo ucraniano alertaram que hackers estão obtendo acesso não autorizado a câmeras de vigilância da fabricante chinesa Dahua, permitindo visualizar imagens, modificar configurações e assumir o controle remoto dos dispositivos.
A equipe de resposta a incidentes cibernéticos da Ucrânia (CERT-UA) identificou casos de comprometimento de câmeras e gravadores de vídeo conectados à internet. Durante as invasões, os responsáveis alteraram configurações e criaram contas de usuários não autorizadas para manter o acesso aos equipamentos.
O órgão não informou quantos dispositivos foram comprometidos, quando os ataques ocorreram ou quem estaria por trás das operações. Equipamentos de vigilância fabricados na China continuam amplamente utilizados na Ucrânia, inclusive por instituições governamentais e unidades militares.
Recurso Easy4IP facilita a identificação de câmeras vulneráveis
Segundo o CERT-UA, os invasores aparentemente exploram o recurso Easy4IP, que permite acessar câmeras Dahua remotamente por meio do serviço de nuvem da fabricante.
A funcionalidade conecta os dispositivos à nuvem utilizando seus números de série, mesmo quando estão protegidos por firewalls ou não podem ser acessados diretamente pela internet.
O problema é que esses identificadores seguem padrões previsíveis, permitindo que hackers tentem adivinhar grandes quantidades de números de série e localizem equipamentos conectados ao serviço.
Assim, dispositivos com o acesso remoto habilitado podem ficar expostos mesmo quando seus números de série nunca foram divulgados publicamente.
Após identificar uma câmera, os invasores podem tentar obter acesso utilizando senhas fracas ou padrões de fábrica, além de explorar vulnerabilidades presentes em versões desatualizadas do firmware para contornar mecanismos de autenticação.
O CERT-UA destacou duas vulnerabilidades críticas, CVE-2021-33044 e CVE-2021-33045, divulgadas em 2021, que afetam determinados modelos de câmeras e gravadores Dahua.
Mais de 14.500 dispositivos foram comprometidos em campanha anterior
Em agosto, pesquisadores da empresa de cibersegurança Hunt.io relataram que hackers haviam comprometido mais de 14.500 dispositivos Dahua durante o verão no hemisfério norte, com infecções confirmadas concentradas na Ucrânia e na Rússia.
Os responsáveis utilizaram técnicas semelhantes às descritas pelo CERT-UA. Entretanto, ainda não existem evidências de que os incidentes estejam relacionados ou tenham sido conduzidos pelos mesmos hackers.
Segundo a Hunt.io, os servidores utilizados na campanha anterior permanecem ativos, embora nenhuma nova cópia das ferramentas maliciosas tenha sido identificada desde julho.
A ausência de novas descobertas não significa necessariamente que as operações tenham terminado, já que os invasores aparentemente restringiram o acesso aos arquivos que permitiram identificar suas atividades.
Outro problema é a persistência do comprometimento. Contas maliciosas e códigos de recuperação podem continuar funcionando mesmo após alterações de senha e, na maioria das versões de firmware, depois de uma restauração às configurações de fábrica.
Por isso, os pesquisadores ressaltam que remover contas não autorizadas não é suficiente para proteger os equipamentos sem atualizar o firmware.
Câmeras de vigilância representam risco durante a guerra
O alerta ocorre em meio às preocupações das autoridades ucranianas sobre a possibilidade de serviços de inteligência russos utilizarem câmeras de vigilância para monitorar movimentações militares e infraestruturas críticas.
Segundo reportagem publicada pelo The Wall Street Journal neste mês, o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) identificou e protegeu aproximadamente 40 mil câmeras desde o início da invasão russa em larga escala, em 2022.
Em janeiro de 2024, o SBU informou que serviços de inteligência russos haviam invadido duas câmeras instaladas em edifícios residenciais de Kyiv para observar atividades de defesa aérea e instalações estratégicas.
Os equipamentos, originalmente destinados ao monitoramento de ruas e estacionamentos, teriam sido reconfigurados para alterar seus ângulos de visão e transmitir imagens pelo YouTube.
Uma investigação realizada em 2024 pela Radio Free Europe/Radio Liberty identificou aproximadamente 24 mil câmeras das fabricantes chinesas Dahua e Hikvision instaladas em sistemas municipais de vigilância na Ucrânia.
Registros de compras públicas também indicam que instituições governamentais e unidades militares ucranianas continuaram adquirindo equipamentos Dahua em 2026, apesar das preocupações de segurança.
A Dahua, uma das maiores fabricantes chinesas de equipamentos de videovigilância, enfrenta restrições nos Estados Unidos. Em 2018, o Congresso americano proibiu órgãos federais de adquirir determinados equipamentos da empresa.
Em 2019, Washington incluiu a fabricante em uma lista de restrições comerciais devido ao seu suposto envolvimento na vigilância e repressão de uigures e outras minorias predominantemente muçulmanas na região chinesa de Xinjiang.
Até o momento, não está claro se algum dos dispositivos comprometidos identificados no alerta mais recente do CERT-UA pertence a órgãos governamentais ou unidades militares da Ucrânia.



