Hackers espalham falsos alertas de ataques nucleares na Rússia e na Ucrânia

Hackers comprometeram aplicativos oficiais de alerta de emergência na Ucrânia e na Rússia para disseminar notificações falsas sobre ataques nucleares, ameaças químicas e confrontos armados. Os incidentes ocorreram entre domingo (1º) e segunda-feira (2), atingindo plataformas utilizadas pela população para receber avisos sobre situações de risco.
Na Ucrânia, moradores de Kyiv receberam notificações alarmantes sobre possíveis ameaças radioativas, ataques químicos e combates nas ruas da capital. Os avisos foram enviados pelo aplicativo Air Alert, utilizado por milhões de ucranianos para acompanhar alertas de ataques russos com mísseis e drones.
Diferentemente dos comunicados legítimos, as mensagens eram falsas. A Força Aérea da Ucrânia informou que o aplicativo provavelmente havia sido comprometido pelo inimigo e orientou a população a desconsiderar as notificações.
As mensagens apresentavam características dos alertas oficiais, incluindo a voz normalmente utilizada pelo aplicativo para anunciar emergências. Uma das notificações, escrita em russo, alertava sobre um possível ataque envolvendo o Oreshnik, míssil balístico russo capaz de transportar ogivas nucleares.
O comunicado também continha um link para um canal no Telegram associado ao grupo hacker Hitcore Corp, até então desconhecido, que reivindicou a responsabilidade pela invasão.
Após identificar a atividade não autorizada, os desenvolvedores desativaram as notificações push e suspenderam temporariamente o serviço. Em comunicado, confirmaram que terceiros haviam interferido no funcionamento do aplicativo e recomendaram que os usuários não acessassem links presentes nas mensagens suspeitas.
Na manhã de segunda-feira, a equipe iniciou a restauração gradual da plataforma. As notificações e os indicadores básicos de ameaças voltaram a funcionar, mas a visualização de riscos no mapa permaneceu temporariamente indisponível. Medidas adicionais de segurança também começaram a ser implementadas.
As autoridades ucranianas esclareceram que a infraestrutura nacional de alertas de emergência não havia sido comprometida. O Centro de Combate à Desinformação desmentiu as notificações falsas, enquanto o Serviço Estatal de Emergências confirmou que o sistema nacional continuava funcionando normalmente. O aplicativo Kyiv Digital, utilizado pela administração da capital, também permaneceu operacional.
Desenvolvido pela empresa ucraniana Ajax Systems, com apoio do Ministério da Transformação Digital, o Air Alert foi lançado em 2022, após o início da invasão russa em larga escala. Em janeiro de 2026, a plataforma registrava 6,6 milhões de usuários ativos.
O aplicativo permite receber notificações sobre ataques com mísseis e drones, ameaças químicas e outras emergências, mesmo quando o celular está no modo silencioso.
A invasão ocorreu em um momento de preocupação com a possibilidade de novos ataques russos de grande escala, incluindo operações contra a infraestrutura energética de Kyiv.
Hackers ucranianos retaliam com falsos alertas na Rússia
Poucas horas depois do comprometimento do Air Alert, o grupo hacker DC8044 reivindicou um ataque contra o aplicativo móvel do Ministério de Situações de Emergência da Rússia, conhecido como EMERCOM.
O grupo, que se apresenta como uma comunidade independente de cibersegurança e hacking sediada em Kyiv, afirmou ter conseguido acesso ao aplicativo russo por meio de sua interface de programação de aplicações (API).
Segundo os responsáveis, a invasão permitiu distribuir notificações falsas informando que ogivas nucleares haviam sido lançadas em direção à Rússia. As mensagens também orientavam os moradores a estocar alimentos e procurar abrigo em porões.
Relatos indicam que os comunicados fraudulentos apareceram em canais associados ao ministério e a centros regionais de resposta a emergências. O DC8044 publicou detalhes técnicos da suposta invasão em seu canal no Telegram.
Na segunda-feira, o Ministério de Situações de Emergência da Rússia reconheceu que seu aplicativo havia sido invadido, mas afirmou que o sistema principal de alerta à população não sofreu alterações.
Segundo o órgão, as notificações oficiais continuariam sendo transmitidas por sirenes, alto-falantes, mensagens de texto, televisão e rádio. O aplicativo comprometido funcionava apenas como um canal complementar de informações.
Ataques contra sistemas de alerta já ocorreram anteriormente
A manipulação de sistemas de emergência não é uma estratégia inédita no conflito entre Rússia e Ucrânia.
Em 2023, hackers teriam comprometido a infraestrutura de transmissão de diversas emissoras comerciais de rádio russas, interrompendo a programação para divulgar alertas falsos sobre ataques aéreos e lançamentos de mísseis. As mensagens orientavam os ouvintes a procurar abrigo imediatamente.
Táticas semelhantes também foram observadas fora do conflito. No mesmo ano, a empresa de cibersegurança Group-IB informou que o grupo hacktivista AnonGhost havia comprometido o Red Alert, aplicativo israelense responsável por emitir avisos em tempo real sobre ataques com foguetes.
Na ocasião, os invasores teriam conseguido enviar notificações não autorizadas para parte dos usuários, incluindo um alerta falso sobre uma bomba nuclear.
Nos incidentes mais recentes, tanto as autoridades russas quanto as ucranianas afirmaram que seus sistemas nacionais de alerta permaneceram operacionais. Os comprometimentos atingiram aplicativos utilizados como canais de comunicação de emergência, permitindo a disseminação de informações falsas em meio ao conflito.



