Ex-engenheiro da OpenAI é detido por suspeita de espionagem e ligações com família real saudita

Um tribunal dos Estados Unidos determinou, nesta segunda-feira, a manutenção da prisão de Abdulrahman Alfozan, ex-engenheiro da OpenAI acusado de instalar um dispositivo de gravação clandestino em uma sala de reuniões executivas da empresa, em São Francisco. O objetivo, segundo os promotores, seria interceptar conversas confidenciais e obter informações sensíveis.
Documentos judiciais apresentados no domingo revelaram que Alfozan, cidadão saudita de 35 anos, manteve comunicações frequentes pelo WhatsApp com um integrante da família real da Arábia Saudita ao longo de 2025 e 2026. O contato mais recente teria ocorrido em 5 de outubro de 2026, quatro dias antes de sua prisão.
Segundo a acusação, o integrante da família real tentou recrutar o engenheiro para uma iniciativa de inteligência artificial na Arábia Saudita. Em maio de 2026, teria enviado a mensagem: "A Arábia Saudita precisa mais de você do que os EUA!", recebendo como resposta "100", interpretada pelos investigadores como concordância.
O contato também teria perguntado repetidamente quando Alfozan deixaria a OpenAI. O engenheiro respondeu que pretendia permanecer na empresa até adquirir o direito às suas ações.
Alfozan ingressou na OpenAI por volta de julho de 2025, com salário-base anual de US$ 385 mil. De acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ), ele teria instalado um dispositivo de gravação de áudio discretamente conectado à porta USB localizada na parte traseira de uma televisão da sala de reuniões executivas.
O equipamento teria sido modificado para impedir a transferência de dados entre o dispositivo e a televisão. As gravações eram armazenadas em um cartão microSD com conteúdo criptografado, dificultando o acesso não autorizado aos arquivos.
A investigação também identificou que Alfozan utilizou a conta pessoal do ChatGPT de sua esposa para pesquisar como construir um gravador de áudio contínuo capaz de capturar sons de um microfone e armazenar arquivos WAV compactados em um cartão SD.
Antes da instalação, o acusado teria utilizado um agente de produtividade da OpenAI para descobrir quais salas eram frequentadas pela liderança e pelos executivos da empresa, incluindo ambientes utilizados em reuniões com parceiros externos. Ele também teria passado períodos consideráveis próximo à sala onde posteriormente instalou o equipamento.
O ex-engenheiro foi acusado de utilizar ou tentar utilizar um dispositivo eletrônico ou mecânico para interceptar comunicações orais. Caso seja condenado, poderá receber pena máxima de cinco anos de prisão.
Risco de fuga e viagem planejada à Arábia Saudita
Os promotores argumentaram que Alfozan apresentava risco de fuga devido aos seus recursos financeiros e aos possíveis contatos com representantes de um governo estrangeiro sem tratado de extradição com os Estados Unidos.
A investigação revelou que ele havia planejado viajar para Riad, capital saudita, em 12 de outubro de 2026, acompanhado da esposa e do filho, utilizando passagens apenas de ida.
Embora tenha sido preso três dias antes da viagem, sua esposa e seu filho teriam deixado os Estados Unidos sem ele. Na véspera da partida, a mulher informou ao FBI que seu visto americano estava expirando e que pretendia retornar permanentemente à Arábia Saudita com a criança.
Os promotores sustentam que o acusado desenvolveu dispositivos personalizados e criptografados para registrar secretamente reuniões envolvendo executivos da OpenAI, parceiros comerciais de alto nível e autoridades governamentais.
Investigação identifica novos dispositivos e registros digitais
Durante buscas na residência de Alfozan e uma análise preliminar de seus equipamentos eletrônicos, incluindo seu iPhone, investigadores encontraram novas evidências relacionadas à suspeita de espionagem.
Entre os materiais identificados estavam componentes eletrônicos semelhantes aos utilizados nos dispositivos encontrados na OpenAI e em uma bolsa desaparecida do acusado.
Fotografias registradas entre 22 e 28 de setembro de 2026 mostravam outro dispositivo de gravação oculto, além de imagens aparentemente relacionadas às conexões de televisores e outros equipamentos eletrônicos em diferentes instalações da OpenAI.
Entre os locais fotografados estava uma segunda sala de conferências utilizada para reuniões confidenciais.
Os investigadores também recuperaram uma anotação excluída do celular, datada de setembro, contendo links para dispositivos de gravação, incluindo produtos da Seeed Studio, fabricante de equipamentos encontrados tanto nos escritórios da OpenAI quanto na residência do acusado.
O histórico de navegação revelou ainda que Alfozan acessou, em 4 de outubro de 2026, uma pasta chamada Saudi Gov Docs.
Entre 6 de julho e 21 de setembro de 2026, ele também teria utilizado um agente de produtividade da OpenAI para consultar informações sobre compromissos comerciais e governamentais relacionados à Arábia Saudita, incluindo atividades do Ministério das Comunicações e Tecnologia da Informação saudita (MCIT).
Possível motivação permanece sob investigação
Segundo os promotores, as evidências sugerem que Alfozan utilizou seus conhecimentos de engenharia para desenvolver dispositivos sofisticados de gravação que pretendia levar à Arábia Saudita.
As autoridades investigam se o objetivo era obter vantagens comerciais pessoais, fornecer informações a um governo estrangeiro ou combinar ambas as finalidades.
Até o momento, não há confirmação de que informações confidenciais tenham sido efetivamente transferidas ao governo saudita, nem de que os contatos com a família real estivessem diretamente envolvidos na suposta instalação dos dispositivos.
A investigação permanece em andamento. A acusação considera que a conduta representa riscos à proteção de informações estratégicas do setor tecnológico e potencialmente à segurança nacional dos Estados Unidos.



