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Ethical hacker diz ter acessado sistemas da FIFA com uma conta comum



Uma falha de controle de acesso em plataformas digitais da FIFA teria permitido que uma pesquisadora de segurança acessasse sistemas internos ligados à operação da Copa do Mundo de 2026, incluindo painéis de transmissão, dados de partidas ao vivo, ferramentas usadas por comentaristas e ambientes com arquivos internos. A vulnerabilidade foi relatada por BobDaHacker, que afirmou ter conseguido chegar a essas áreas após se registrar em uma plataforma pública da entidade para agentes de futebol.


Segundo o relato, o problema começou no FIFA Agent Platform, portal usado para cadastro de agentes. Após concluir o registro com documento de identidade e validação de e-mail, a conta criada foi adicionada ao tenant Microsoft Entra da FIFA, anteriormente conhecido como Azure AD. O ponto crítico, de acordo com a pesquisadora, é que esse mesmo ambiente de identidade era utilizado por diferentes aplicações internas da organização.


Ao tentar acessar a Football Data Platform, a conta não possuía funções atribuídas e recebeu uma mensagem de acesso negado na interface. A restrição, porém, estaria aplicada apenas no front-end da aplicação. Na prática, a interface bloqueava a visualização com base no token do usuário, mas as APIs de backend não validavam corretamente se aquela conta tinha autorização para receber os dados solicitados.

Essa diferença entre autenticação e autorização foi o centro da falha. A autenticação confirmava que a conta existia no ambiente da FIFA, mas o backend não aplicava os controles necessários para limitar o acesso de acordo com papéis e permissões. Com isso, uma conta sem funções atribuídas teria conseguido acessar áreas que deveriam estar restritas a operadores, equipes técnicas e profissionais envolvidos na transmissão e gestão das partidas.


Entre os sistemas expostos estava um painel de gerenciamento de streaming da Copa do Mundo de 2026. O ambiente, segundo a divulgação, continha informações de partidas, ângulos de câmera, URLs de ingestão RTMP, manifests de pré-visualização e dados usados no fluxo de distribuição para parceiros de transmissão. A pesquisadora afirma que chegou a abrir uma prévia em um player de vídeo para confirmar que o conteúdo era ao vivo, mas encerrou o acesso imediatamente.

O risco operacional era significativo. O painel não oferecia apenas leitura de informações. De acordo com o relato, também havia controles para iniciar, interromper e agendar transmissões de diferentes feeds. Embora a pesquisadora afirme não ter acionado essas funções, a presença desses controles em uma conta sem permissões indicaria uma falha grave de autorização em sistemas ligados à transmissão do torneio.


O impacto potencial ia além da visualização indevida de imagens. A exposição de dados de ingestão e chaves de transmissão poderia, em um cenário malicioso, permitir interferência em fluxos de vídeo usados na cadeia de broadcast. A própria pesquisadora descreveu o caso de forma provocativa, dizendo que seria possível substituir a transmissão da Copa por outro conteúdo, embora tenha declarado que não testou essa hipótese nem enviou qualquer vídeo para os sistemas.


A investigação também apontou acesso a outras áreas da Football Data Platform, incluindo competições, partidas, equipes, ferramentas, plataforma de troca de dados, painéis analíticos, sistema de informações para comentaristas, recursos de IA da FIFA e área administrativa. Em algumas telas, segundo o relato, havia dados de partidas ao vivo, linha do tempo de eventos, informações de arbitragem, estatísticas em tempo real e componentes editoriais utilizados durante a cobertura dos jogos.

Outro ponto sensível envolvia permissões de escrita em áreas de gerenciamento de partidas. A conta sem funções atribuídas teria acesso a operações relacionadas a estatísticas, comentários editoriais, escalações táticas, dados de desempenho, ajustes de início de partida e informações consumidas por sistemas usados em transmissões. Caso exploradas por um invasor, essas funções poderiam gerar desinformação operacional, afetar dados exibidos ao público e comprometer a confiabilidade de informações entregues a comentaristas e emissoras.


O Commentator Information System, usado para apoiar narradores e comentaristas com dados em tempo real, também teria ficado acessível. Esse tipo de plataforma reúne estatísticas, formações, informações de jogadores, substituições, notas editoriais e dados de contexto preparados para transmissões. A exposição desse ambiente não representa apenas risco de vazamento, mas também de manipulação de informações que podem chegar ao público durante uma partida.


Além dos sistemas de transmissão e dados esportivos, BobDaHacker relatou ter encontrado um ambiente de desenvolvimento baseado em Azure Function App que retornava metadados e links para arquivos internos armazenados em Azure Blob Storage. Entre os documentos citados estavam planilhas relacionadas a transferências, comparações de receita, dados de representação em nível executivo e estatísticas de árbitros e treinadores.

A cadeia de ataque descrita no relato é relativamente simples do ponto de vista conceitual: uma pessoa se cadastrava em um portal público da FIFA, passava a existir no ambiente de identidade da entidade, autenticava-se em aplicações internas, recebia uma negativa visual de acesso na interface, mas ainda assim conseguia obter dados porque as APIs não reforçavam a autorização no servidor. Essa classe de erro é conhecida em segurança como falha de autorização server-side, quando o backend confia excessivamente em validações feitas no navegador.


O caso também chamou atenção pela dificuldade de comunicação com a FIFA. A pesquisadora afirma que tentou contato por e-mails, telefone, WhatsApp e outros canais, sem retorno inicial. Como a Copa estava em andamento e os sistemas afetados estavam ativos, ela buscou acionar empresas e órgãos relacionados à operação e à segurança do evento, incluindo MediaKind, HBS, CISA e FBI. Segundo o relato, a MediaKind compreendeu a gravidade do problema e solicitou detalhes técnicos para validação.


A vulnerabilidade teria sido corrigida no dia seguinte ao reporte. Após a correção, a conta sem funções passou a receber respostas 403 diretamente do servidor, indicando que a autorização começou a ser aplicada no backend, e não apenas na interface. A FIFA, segundo BobDaHacker, não respondeu formalmente ao reporte, embora o problema tenha sido mitigado.


Do ponto de vista de segurança, o incidente levanta discussões importantes sobre arquitetura de identidade, segmentação de tenants, controle de acesso baseado em papéis e processos de divulgação responsável de vulnerabilidades. Aplicações críticas não podem depender apenas de verificações client-side, já que qualquer decisão de autorização relevante precisa ser validada no servidor. Em ambientes com múltiplas plataformas compartilhando o mesmo provedor de identidade, a ausência de controles granulares pode transformar uma conta legítima, mas sem privilégios, em uma porta de entrada para sistemas sensíveis.


Também chama atenção a falta de canais públicos claros para reporte de vulnerabilidades. Em organizações com alta exposição global, especialmente responsáveis por eventos de grande porte, políticas de divulgação coordenada, arquivos security.txt e programas estruturados de recebimento de falhas reduzem o tempo entre descoberta, triagem e correção. Quando pesquisadores precisam recorrer a contatos informais ou órgãos governamentais para reportar um problema crítico, o risco operacional aumenta.


O episódio não indica, com base nas informações divulgadas, que transmissões tenham sido adulteradas ou que dados tenham sido explorados por agentes maliciosos. Ainda assim, a falha descrita mostra como um erro aparentemente básico de autorização pode afetar sistemas de grande escala, com impacto potencial sobre transmissão ao vivo, integridade de dados esportivos, comunicação com emissoras e continuidade operacional de um dos maiores eventos esportivos do mundo.

 
 
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