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Desenvolvedor FOSS cria compilador BASIC09 usando LLVM


Um novo projeto de software livre está trazendo uma linguagem histórica para uma infraestrutura moderna de compilação. O desenvolvedor Boisy Pitre, ex-profissional da Microware, criou um compilador para BASIC09 usando o LLVM como biblioteca, após uma proposta inicial publicada no fórum Discourse da suíte de compiladores.


A proposta original, intitulada “Adding BASIC09 frontend tool to LLVM”, sugeria a criação de um front-end capaz de permitir que o LLVM compilasse código BASIC. A ideia evoluiu para um compilador independente chamado basic09c, que não integra diretamente o LLVM como um novo front-end oficial, mas usa sua infraestrutura para gerar código.


Nem LLVM nem GCC oferecem suporte direto à linguagem BASIC. Por isso, o projeto chama atenção por aproximar uma linguagem clássica, frequentemente associada aos microcomputadores das décadas de 1970 e 1980, de uma das bases mais importantes da compilação moderna. A iniciativa lembra outro movimento recente no universo de compiladores: a adição de ALGOL-68 ao GCC.


O BASIC, apesar da idade, continua longe de estar morto. A linguagem completou 60 anos recentemente e ainda mantém dialetos modernos, projetos de código aberto e comunidades ligadas à computação retrô, educação e preservação de software. No caso de Pitre, porém, o foco não está em qualquer BASIC doméstico tradicional, mas no BASIC09, uma variante associada ao sistema operacional OS-9, da Microware.


O BASIC09 era uma linguagem estruturada oferecida pela Microware para seu sistema OS-9, um ambiente multitarefa, multiusuário e semelhante ao Unix. Diferentemente de muitos dialetos populares de BASIC da época, o BASIC09 tinha recursos mais avançados para desenvolvimento estruturado, incluindo procedimentos nomeados, variáveis locais, estruturas IF…THEN…ELSE, tipos definidos pelo usuário e ausência de necessidade de números de linha.


Essas características o colocavam em uma posição diferente do BASIC usado em muitos microcomputadores domésticos, que frequentemente dependia de linhas numeradas e de um estilo mais linear de programação. O BASIC09 buscava oferecer uma experiência mais próxima de linguagens estruturadas, tornando o código mais organizado e adequado a aplicações maiores.


O OS-9 da Microware também tem uma história própria relevante. Apesar da semelhança no nome, ele não tinha relação com o Mac OS 9 da Apple. No fim dos anos 1990, quando a Apple lançou seu MacOS 9, muitos usuários confundiram os nomes e passaram a procurar comunidades do OS-9 da Microware com perguntas sobre Macs. A confusão chegou ao ponto de a Microware processar a Apple por questões de marca.


A Microware continua existindo e ainda oferece suporte ao OS-9, hoje posicionado como um sistema operacional de tempo real, ou RTOS. No passado, o sistema teve presença em microcomputadores como o Dragon 32, do Reino Unido, e também podia ser executado no Tandy Color Computer, conhecido nos Estados Unidos. Ambos usavam o processador Motorola 6809, uma CPU bastante respeitada entre entusiastas de retrocomputação.


A escolha do BASIC09 por Boisy Pitre tem também um componente pessoal e histórico. Pitre trabalhou na Microware no início da carreira e há décadas escreve sobre sistemas ligados ao Tandy CoCo e ao ecossistema 6809. Em 2024, ele concluiu seu doutorado, mas sua atuação no setor vem de muito antes, especialmente em projetos ligados à preservação e modernização de tecnologias clássicas.

Essa não é a primeira iniciativa de Pitre que chama atenção na retrocomputação. Em 2012, ele criou o Liber809, um projeto ambicioso que propunha substituir o processador original de máquinas Atari de 8 bits por um Motorola 6809, acompanhado de firmware compatível. A ideia era combinar uma das CPUs de 8 bits mais avançadas com um dos computadores de 8 bits mais capazes de sua época.


O projeto Liber809 tornaria os Ataris incompatíveis com softwares originais da plataforma, mas permitiria que rodassem NitrOS-9, uma distribuição comunitária derivada da versão original do OS-9 para 6809. Esse tipo de iniciativa mostra como a retrocomputação vai além da nostalgia: ela também envolve engenharia reversa, preservação de software, experimentação arquitetural e reaproveitamento de conceitos técnicos antigos em contextos modernos.


O basic09c segue essa mesma linha. Ao usar LLVM como biblioteca, o compilador pode aproveitar uma infraestrutura madura de geração, otimização e emissão de código. Isso permite que uma linguagem histórica como o BASIC09 seja levada a ambientes modernos com menos esforço do que seria necessário para criar todo um backend de compilação do zero.


O LLVM é amplamente usado por compiladores, linguagens e ferramentas de desenvolvimento atuais. Ele fornece blocos de construção para análise, otimização e geração de código para diferentes arquiteturas. Ao criar um compilador BASIC09 sobre essa base, Pitre conecta um dialeto clássico a uma cadeia moderna de ferramentas.


A iniciativa também reforça o papel dos compiladores como instrumentos de preservação digital. Muitas linguagens e sistemas antigos continuam relevantes para estudo, manutenção de software legado, documentação histórica e execução de programas em ambientes emulados. Quando uma linguagem ganha um compilador moderno, fica mais fácil preservar não apenas seu código, mas também sua semântica e seu modo de desenvolvimento.


Embora o BASIC09 não tenha o apelo popular de linguagens modernas, o projeto atende a uma comunidade específica de entusiastas, pesquisadores, usuários de OS-9 e interessados em arquiteturas históricas. Também demonstra que linguagens consideradas antigas ainda podem encontrar espaço quando conectadas a ferramentas contemporâneas.


Em um cenário em que software legado continua presente em sistemas industriais, embarcados e especializados, projetos como basic09c têm valor técnico e histórico. Eles ajudam a manter viva a capacidade de compilar, estudar e executar código que poderia se perder com o desaparecimento de ambientes originais.


O desenvolvimento do compilador ainda é uma iniciativa de nicho, mas mostra como o ecossistema FOSS pode preencher lacunas que grandes projetos não priorizam. Se LLVM e GCC não têm suporte direto a BASIC, desenvolvedores independentes podem usar suas estruturas para criar pontes entre linguagens antigas e plataformas modernas.


No fim, o basic09c é mais do que uma curiosidade para fãs de BASIC. Ele representa a continuidade de uma tradição de engenharia voltada à preservação, à experimentação e à recuperação de tecnologias que ajudaram a formar a computação moderna.

 
 
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