Delphi e C++ Builder ganham assistente de inteligência artificial no RAD Studio
- Cyber Security Brazil
- há 4 horas
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A Embarcadero lançou o Kai, um assistente de inteligência artificial agêntica para o RAD Studio, ambiente de desenvolvimento integrado usado por programadores Delphi e C++ Builder. A novidade chega como uma extensão separada, o que significa que o RAD Studio, por padrão, continua sem recursos nativos de IA incorporados diretamente à IDE.
O Kai adiciona funcionalidades como chat, preenchimento de código e um servidor MCP, sigla para Model Context Protocol, permitindo que outros agentes de IA se comuniquem com o ambiente de desenvolvimento. A ferramenta depende de grandes modelos de linguagem externos, que podem rodar na nuvem ou localmente, e exige que os usuários forneçam suas próprias chaves de API para utilizar os provedores de IA.
Apesar dessa dependência de terceiros, o Kai é oferecido como produto por assinatura, com custo de US$ 249 por desenvolvedor ao ano. A Embarcadero também disponibiliza testes gratuitos para interessados em avaliar a extensão antes da contratação.
O lançamento marca a entrada formal do ecossistema RAD Studio na corrida por recursos de IA dentro das ferramentas de desenvolvimento. Nos últimos anos, IDEs e editores de código passaram a incorporar assistentes capazes de sugerir trechos de programação, explicar erros, automatizar tarefas e interagir com projetos de software em linguagem natural. No caso do Kai, a proposta é levar essa dinâmica para uma base de desenvolvedores que ainda mantém aplicações Delphi e C++ Builder em ambientes corporativos, sistemas legados e soluções de alto desempenho.

O Delphi, cuja linguagem também é conhecida como Object Pascal, tem uma trajetória longa no desenvolvimento de software. A versão 1.0 foi lançada em 1995 para Windows de 16 bits e, na época, foi considerada uma das ferramentas mais avançadas para desenvolvimento rápido de aplicações. O ambiente combinava um designer visual de formulários por arrastar e soltar, semelhante ao Microsoft Visual Basic, com um compilador de código nativo. Diferentemente do VB, os executáveis gerados pelo Delphi não dependiam de um mecanismo de runtime separado.
O C++ Builder chegou posteriormente com o mesmo conceito de designer visual, mas utilizando C++ em vez de Object Pascal. A combinação de interface visual, compilação nativa e produtividade tornou as duas ferramentas populares em aplicações desktop Windows, especialmente em cenários em que desempenho e facilidade de distribuição eram pontos relevantes.

Segundo Stephen Ball, diretor de pré-vendas da Embarcadero, a permanência do Delphi após mais de 30 anos está ligada justamente à sua capacidade de gerar código nativo totalmente compilado. Ele afirmou que há softwares escritos na plataforma executando partes centrais de sistemas de bolsas de valores e ambientes de negociação de alta frequência, onde velocidade, desempenho e uso eficiente de threads são requisitos essenciais. Ball também destacou que alguns clientes estariam cansados de aplicações híbridas que consomem muita memória e energia.
Essas características continuam sendo os principais argumentos em favor do Delphi, sobretudo para aplicações desktop Windows. Ainda assim, a linguagem ocupa atualmente um nicho pequeno do mercado. De acordo com a pesquisa mais recente do Stack Overflow citada no texto original, ela é utilizada por 2,5% dos desenvolvedores, número suficiente para manter uma base viável, mas distante do uso massivo de linguagens mais populares.
A versão atual do RAD Studio é a 13.1 e inclui suporte a binários nativos para Windows em Arm. Desenvolvedores que não utilizam Delphi há muitos anos ainda encontrarão um ambiente familiar, mas a plataforma evoluiu significativamente desde seus primeiros lançamentos. Entre as mudanças estão o FireMonkey, framework multiplataforma para Windows, macOS, iOS, Android e Linux, uma IDE real de 64 bits, suporte a telas de alta densidade de pixels, além de novos recursos de linguagem, como inferência de tipos, variáveis locais inline e operadores ternários. No C++ Builder, o compilador passou a ser baseado no Clang 20.
Apesar da evolução, a compatibilidade retroativa continua sendo um ponto forte. Segundo o relato, códigos Delphi legados tendem a rodar com poucos ajustes, o que ajuda a explicar a permanência da tecnologia em organizações com aplicações críticas ou sistemas desenvolvidos ao longo de muitos anos.
O Kai surge como uma resposta ainda relativamente minimalista à pressão do mercado por recursos de IA dentro das IDEs. Após a instalação da extensão e a ativação de uma assinatura, o desenvolvedor passa a contar com opções para configurar modelos voltados ao chat agêntico e ao preenchimento de código. As sugestões podem aparecer como “ghost text” diretamente no editor, aceitas pela tecla Tab, como itens em uma lista de autocompletar ou em um painel separado.
O chat do Kai é aberto e pode gerar código, resolver erros de compilação, gerenciar controle de versão, executar operações em arquivos e interagir com outros servidores MCP. Na prática, a extensão tenta transformar a IDE em um ambiente mais conectado a fluxos modernos de desenvolvimento assistido por IA, nos quais o programador delega tarefas específicas ao assistente, mas mantém a revisão e a decisão final sobre o código produzido.
Uma avaliação inicial da ferramenta apontou resultados mistos. A possibilidade de configurar o Kai para trabalhar com provedores locais de LLM foi considerada um ponto positivo, com suporte a Ollama e LM Studio. Essa opção pode ser relevante para desenvolvedores e empresas que preferem manter parte do processamento em ambiente local, seja por controle, privacidade ou restrições internas. No entanto, o uso de modelos locais exige computadores potentes e bastante memória RAM, especialmente quando o objetivo é executar modelos maiores com desempenho aceitável.
Também foram observadas limitações. Uma consulta que funcionou diretamente no chat do LM Studio apresentou erro ao ser executada pelo chat do Kai. Em outro teste, ao solicitar código para uma função de conversão sem especificar a linguagem, o Kai, usando um modelo local, retornou uma implementação em Python, em vez de Delphi ou C++.
A questão da disponibilidade de dados de treinamento para Delphi também foi levantada. Marco Cantu, gerente de produto do Delphi, reconheceu que o status de nicho da linguagem já gerou problemas, incluindo casos em que modelos de IA produziam código no estilo antigo do Delphi 7, lançado em 2002, sem aproveitar recursos mais recentes da linguagem. Segundo ele, porém, a situação melhorou.
Cantu afirmou que atualmente a maioria dos grandes modelos de linguagem consegue gerar código Delphi com bom nível de qualidade. Ele também lembrou que o Kai atende tanto Delphi quanto C++ Builder, e que, no caso de C++, os modelos tendem a apresentar desempenho ainda melhor, devido à maior disponibilidade de dados e exemplos públicos da linguagem.
Sobre mecanismos de proteção contra riscos como prompt injection ou uso indevido do assistente, Cantu afirmou que a Embarcadero parte do pressuposto de que os clientes usarão o Kai em um contexto no qual humanos revisam o código e verificam o que está sendo feito. A declaração indica que a ferramenta foi desenhada para atuar como apoio ao desenvolvimento, não como substituta do processo de revisão técnica, validação de segurança e controle de qualidade.
Esse ponto é relevante porque assistentes de IA integrados a IDEs ampliam a superfície de risco no ciclo de desenvolvimento. Quando uma ferramenta consegue interagir com arquivos, gerar código, manipular projetos, acessar sistemas de controle de versão ou se conectar a outros agentes, falhas de contexto, comandos mal interpretados ou entradas maliciosas podem causar impactos no fluxo de trabalho. No caso do Kai, o texto original não aponta incidentes específicos, mas mostra que a responsabilidade pela revisão humana permanece central.
A recepção da comunidade também foi mista. Durante um webinar de apresentação, alguns participantes defenderam que o Kai deveria estar incluído gratuitamente nas assinaturas do RAD Studio ou do Delphi, já que depende de LLMs externos e exige chaves de API próprias dos usuários. Outros consideraram o valor anual de US$ 249 razoável, especialmente se a ferramenta economizar tempo de desenvolvimento. Também houve quem argumentasse que a Embarcadero deveria concentrar esforços em melhorias no núcleo do RAD Studio, em vez de adicionar recursos de IA.
Outra visão apresentada é que o próprio RAD Studio talvez não precise do Kai para todos os perfis de desenvolvedores. Um programador afirmou que, em seu fluxo atual, costuma abrir a IDE Delphi apenas quando precisa ajustar arquivos DFM, os Delphi Form Modules, enquanto cerca de 90% do trabalho de desenvolvimento acontece em interfaces de linha de comando como Claude Code e Codex CLI. Essa percepção reflete uma mudança mais ampla no desenvolvimento de software, em que agentes de IA e ferramentas por linha de comando começam a reduzir a dependência de IDEs tradicionais em algumas etapas do processo.
Mesmo com limitações, o Kai representa um movimento importante da Embarcadero para aproximar o RAD Studio das práticas contemporâneas de desenvolvimento assistido por IA. A ferramenta ainda parece estar em evolução, mas indica que Delphi e C++ Builder também passam a fazer parte do debate sobre codificação agêntica, automação de tarefas e integração entre IDEs e modelos de linguagem.
A avaliação inicial sugere que o Kai ainda precisa amadurecer, especialmente em estabilidade, precisão contextual e alinhamento com as linguagens usadas no RAD Studio. Ao mesmo tempo, o lançamento serve como lembrete de que o Delphi continua sendo uma opção relevante para aplicações gráficas de alto desempenho, com implantação simples e código nativo, mesmo ocupando uma fatia pequena do mercado moderno de desenvolvimento.


