Brasil amplia infraestrutura de IA enquanto tenta reduzir dependência tecnológica de empresas estrangeiras
- Cyber Security Brazil
- há 2 horas
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A concentração da infraestrutura digital e de inteligência artificial nas mãos de poucas Big Tech pode limitar a capacidade de países de transformar investimentos em IA em desenvolvimento econômico, inovação local e autonomia tecnológica. O alerta aparece em um relatório do Institute for Public Policy Research (IPPR) sobre o Reino Unido, mas a discussão também encontra paralelo no Brasil, que acelera investimentos em data centers, cloud e supercomputação enquanto tenta reduzir sua dependência de tecnologias estrangeiras.
Segundo o IPPR, o domínio de grandes empresas sobre diferentes camadas da economia digital britânica pode dificultar o crescimento de concorrentes locais e fazer com que parte relevante dos ganhos proporcionados pela inteligência artificial permaneça concentrada em grupos estrangeiros. Uma pesquisa citada pelo instituto mostra que 79% das empresas britânicas dependentes de plataformas digitais estão preocupadas com a possibilidade de as Big Tech utilizarem sua posição dominante para restringir a concorrência.
No Reino Unido, essa concentração aparece em diferentes segmentos. O Google responde por mais de 90% das buscas, enquanto Microsoft e AWS representam individualmente entre 30% e 40% dos gastos dos clientes britânicos com cloud. O Google possui outros 5% a 10%.
A inteligência artificial acrescenta uma nova camada ao problema. A Nvidia ocupa posição dominante no fornecimento de aceleradores utilizados no treinamento e execução de modelos, enquanto grandes hyperscalers controlam boa parte da infraestrutura de cloud necessária para disponibilizar capacidade computacional em escala.
Microsoft, Google e Amazon também investiram, juntas, mais de US$ 20 bilhões em alguns dos principais desenvolvedores de IA. Essas relações entre provedores de infraestrutura e empresas responsáveis pelos modelos já despertaram a atenção de autoridades de concorrência no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Para o IPPR, caso a inteligência artificial evolua para um mercado dominado por um pequeno grupo de empresas, o Reino Unido corre o risco de investir no desenvolvimento do setor sem necessariamente capturar proporcionalmente seus benefícios econômicos. Startups britânicas podem continuar dependendo de chips, cloud, plataformas e outros componentes fornecidos pelos mesmos grupos com os quais precisam competir.
O instituto também critica a atuação da Competition and Markets Authority (CMA) e pede maior apoio político para que o regulador intervenha nos mercados digitais. A CMA contesta essa avaliação e afirma que já adotou medidas relacionadas ao Google Search, aos ecossistemas móveis de Google e Apple e ao mercado de software empresarial da Microsoft.
O debate britânico encontra um paralelo importante no Brasil.
O país está passando por uma forte expansão de sua infraestrutura digital. O governo estima que o Brasil já concentra cerca de 200 data centers, ocupa a 12ª posição mundial e responde por aproximadamente metade do mercado latino-americano, com previsão de R$ 60 bilhões a R$ 100 bilhões em investimentos nos próximos quatro anos.
Empresas globais também estão ampliando sua presença. A Microsoft anunciou em 2024 um investimento de R$ 14,7 bilhões ao longo de três anos para expandir infraestrutura de cloud e inteligência artificial no Brasil. A AWS, por sua vez, anunciou R$ 10,1 bilhões em investimentos até 2034 para ampliar e operar sua infraestrutura de data centers no país.
Mais recentemente, a Alibaba Cloud anunciou dois data centers no Brasil como parte de sua expansão internacional e de um programa global de US$ 53 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial.
Essa expansão traz capacidade computacional, investimentos e possibilidade de processamento local, mas não elimina automaticamente a dependência tecnológica. Um data center localizado fisicamente no Brasil pode continuar operando tecnologias, plataformas de cloud, aceleradores, modelos e ecossistemas de software controlados por empresas estrangeiras.
É justamente nesse ponto que o alerta britânico se torna relevante para o mercado brasileiro.
Para empresas nacionais, uma concentração excessiva pode aumentar o chamado vendor lock-in, situação em que aplicações e dados passam a depender profundamente das tecnologias proprietárias de determinado fornecedor. Migrar posteriormente para outra plataforma pode exigir alterações de arquitetura, transferência de grandes volumes de dados e substituição de serviços específicos.
O impacto também pode atingir startups brasileiras de IA. Mesmo que uma empresa desenvolva modelos, agentes ou aplicações localmente, ela normalmente precisa acessar GPUs, armazenamento, redes, APIs e plataformas de desenvolvimento. Caso essas camadas permaneçam concentradas, parte significativa do custo e do poder de negociação continuará fora do país.
Há ainda uma dimensão geopolítica. Restrições comerciais envolvendo semicondutores avançados já demonstraram como decisões tomadas por governos estrangeiros podem interferir na disponibilidade global de infraestrutura de IA. Para um país dependente de chips importados e plataformas estrangeiras, mudanças regulatórias, controles de exportação ou disputas comerciais podem afetar preços e acesso à capacidade computacional.
O governo brasileiro vem tentando reduzir parte desse risco. Em agosto, anunciou uma nova etapa de sua estratégia para ampliar infraestrutura própria de supercomputação e inteligência artificial, incluindo iniciativas voltadas ao treinamento de modelos no país.
Outra frente é a Nuvem Brasileira, projeto conduzido pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, ABDI, Serpro e BNDES. O objetivo declarado é ampliar a soberania sobre computação em nuvem e manter dados e controle de determinadas infraestruturas em mãos nacionais.
O tema também chegou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Em maio, o órgão analisou diferentes acordos envolvendo empresas de inteligência artificial e determinou a notificação da operação Microsoft/Inflection, além de abrir procedimentos relacionados a Google/Windsurf e Google/Hume AI. Segundo o Cade, operações envolvendo tecnologia, propriedade intelectual, talentos especializados e capacidade competitiva podem exigir análise concorrencial mesmo quando não seguem o formato tradicional de aquisição de empresas.
O desafio brasileiro, portanto, não é simplesmente afastar empresas estrangeiras. Os investimentos das Big Tech ajudam a aumentar a capacidade computacional disponível no país e podem acelerar a adoção de IA. O ponto central é evitar que expansão de infraestrutura seja confundida com autonomia tecnológica.
Nesse cenário, diversificação de fornecedores, interoperabilidade, portabilidade de dados, incentivo a empresas nacionais, capacidade própria de computação e acompanhamento concorrencial tornam-se componentes importantes. Para organizações brasileiras, arquiteturas multicloud e padrões abertos também podem reduzir dependências excessivas, embora tragam custos e complexidade operacional adicionais.
O Brasil possui vantagens relevantes para receber novos data centers, incluindo disponibilidade de energia renovável e posição de liderança no mercado latino-americano. Segundo o Ministério de Minas e Energia, projetos que representam 7,1 GW de capacidade já correspondem a aproximadamente R$ 159 bilhões em investimentos previstos para os próximos anos.
A questão levantada pelo IPPR no Reino Unido, portanto, também se aplica ao Brasil: não basta atrair data centers e consumir serviços de inteligência artificial. Para capturar uma parcela maior do valor econômico dessa transformação, o país precisará desenvolver empresas, profissionais, modelos, infraestrutura e propriedade intelectual próprios, ao mesmo tempo em que mantém acesso competitivo às tecnologias globais.



